Monday, March 21, 2016

Não se mete o passado na algibeira


Vivem no meio de bens herdados, de presentes, cada móvel delas é um presente. Relógios de sala, medalhas, retratos, conchas, pesa-papéis, biombos, xailes. Têm armários cheios de garrafas, de panos, de roupa velha, de jornais; guardaram tudo. O passado é um luxo de proprietário. Onde havia eu de conservar o meu? Não se mete o passado na algibeira; é preciso ter casa para o arrumar. Possuo apenas o meu corpo; um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações; elas passam através dele. Não devia queixar-me: tudo quanto quis foi ser livre. (…) Lá está outra vez a olhar para mim. Desta vez vai-me falar; contraio-me todo. Não é simpatia que há entre nós: somos parecidos, é o que é. O homem está sozinho como eu, mas mais enterrado que eu na solidão. Deve estar à espera da sua Náusea ou de qualquer coisa nesse género. Há agora, portanto, pessoas que me reconhecem, que pensam, depois de me ter encarado: "Aquele é dos nossos." E então? Que é que ele quer? Deve saber bem que não devemos prestar nenhum socorro um ao outro. As famílias estão nas suas casas, no meio das suas recordações. E nós aqui, dois destroços sem passado.
Jean-Paul Sartre

No comments:

Post a Comment