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Friday, November 24, 2017

António Gedeão (24 de novembro de 1906 - 19 de fevereiro de 1997)


Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.
Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.
Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
a cadeira onde a memória está sentada,
a mesa, o copo, a chávena, o relógio,
o móvel onde alguém permanece encostado
sem volume e sem tempo,
nós próprios, quando os olhos indignados
nas pálpebras se encobrem.
Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro
Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.
Se fosse o amor dos homens
quando se abrisse a mão já lá não estava.

António Gedeão

Monday, April 11, 2016

As Palavras Escolhidas



Não sei, não sei, não, não sei,
não sei, nem ninguém o sabe,
porque este dever me cabe,
dever ou devir, não sei.
Outros, que um dia virão,
saberão e entenderão
o que nenhum de nós sabe.
Outros dirão o motivo
por que é que me exprimo assim,
por que luto e por que vivo
tão alheado de mim.
Por que se impõe, por que oprime
este martírio comum,
esta expiação sem crime
na cela de cada um.
Por que, sem escolha, me entrego
nas palavras escolhidas,
sementes evoluídas
cumprindo um destino cego.
Tudo então será fácil. Tudo.
E todos o entenderão.
Todas as gotas deste caudal mudo
no mesmo longo leito correrão.
Então se entenderá que a voz do poeta,
que o metal da trompete e as tintas do antraceno,
que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,
que o choque do neutrão da experiência secreta,
que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,
tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.
E então todos dirão:
Claro! Evidentemente!

António Gedeão

Monday, March 21, 2016

As Palavras Escolhidas


Não sei, não sei, não, não sei,
não sei, nem ninguém o sabe,
porque este dever me cabe,
dever ou devir, não sei.
Outros, que um dia virão,
saberão e entenderão
o que nenhum de nós sabe.
Outros dirão o motivo
por que é que me exprimo assim,
por que luto e por que vivo
tão alheado de mim.
Por que se impõe, por que oprime
este martírio comum,
esta expiação sem crime
na cela de cada um.
Por que, sem escolha, me entrego
nas palavras escolhidas,
sementes evoluídas
cumprindo um destino cego.
Tudo então será fácil. Tudo.
E todos o entenderão.
Todas as gotas deste caudal mudo
no mesmo longo leito correrão.
Então se entenderá que a voz do poeta,
que o metal da trompete e as tintas do antraceno,
que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,
que o choque do neutrão da experiência secreta,
que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,
tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.
E então todos dirão:
Claro! Evidentemente!
António Gedeão