Vem a noite e o silêncio. Noite infinda, noite do nosso inverno, sem calor e esperança, paz podre, ó noite portuguesa!… Uma a uma abrem-se no lusco-fusco (como se diz) pequeninas chamas e paradas fixas ou trementes brilhantes nos fitam ao longe no buraco da distância. Com o sorriso defeituoso de quem chorou muito, uma ternura larga de quem chegou agora e não espera já mais nada, a poeira toda do caminho para andar e a alma mole: vista daqui deste silêncio até a cidade tem grandeza. Naquelas ruas entre as casas e as luzes está a , é ali que respira e anda e ama (quem sabe?) nesta aventura sórdida que vivemos empurrados por estúpidos, condenados por juízes loucos, castigados por todas as polícias, sufocados por velhos, gente imunda todos, bicharada rasteira moribunda peganhenta manhosa crápula; aquela uma luz pequenina é talvez o seu quarto talvez um sexo fluorescente (como quem sabe atrair os olhares) a sua voz um grito parado sufocado como quem já não sabe por que razão gritar.
Luiz Pacheco

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