Thursday, December 29, 2016

Para você ganhar belíssimo Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, December 28, 2016

Quando um Homem Quiser



Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão.

Ary dos Santos

Ri, arre!

Ri…, ri de ti para os outros,
Ri dos outros para ti,
Ri de ti para ti…ri!
Ri dos outros para os outros…,
Ri, arre!, ri, irra!, ri!
José Régio

Tuesday, December 27, 2016

Convocação



Pelos meus nove e dez anos
Gostava de tocar à campainha dos prédios grandes.
Drrim… drrim… drrim…
Depois, fugia até à esquina, afogueado,
A disfarçar o medo.
Mas às vezes quando tinha mais vontade de viver que de fugir
Voltava para trás e espreitava…
Inquilinos em todos os patamares,
Uns olhando para cima e outros para baixo,
Primeiro rogando pragas ao acaso,
Depois interrogando-se,
Cumprimentando-se tardiamente,
oferecendo-se os serviços,
E dando-se de um certo calor alheio.
Tocar as campainhas…
Fiz isso em muitas ruas.
Era o modo que eu tinha de convocar a cidade
A encontrar-se, a perguntar-se, a dar-se as mãos e dialogar.

Fernando Sylvan

Friday, December 23, 2016

Natal, e não Dezembro



Entremos, apressados, friorentos,
num gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira


Wednesday, December 21, 2016

O Presépio Somos Nós



O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro destes gestos que em igual medida
a esperança e a sombra revestem
Dentro das nossas palavras e do seu tráfego sonâmbulo
Dentro do riso e da hesitação
Dentro do dom e da demora
Dentro do redemoinho e da prece
Dentro daquilo que não soubemos ou ainda não tentamos

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro de cada idade e estação
Dentro de cada encontro e de cada perda
Dentro do que cresce e do que se derruba
Dentro da pedra e do voo
Dentro do que em nós atravessa a água ou atravessa o fogo
Dentro da viagem e do caminho que sem saída parece

O Presépio somos nós
É dentro de nós que Jesus nasce
Dentro da alegria e da nudez do tempo
Dentro do calor da casa e do relento imprevisto
Dentro do declive e da planura
Dentro da lâmpada e do grito
Dentro da sede e da fonte
Dentro do agora e dentro do eterno.

José Tolentino Mendonça

Friday, December 2, 2016

Sei um Ninho!



Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
-Sei um ninho!
A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido nos alheamento costumado, nem ouviu.
Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
-Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.
A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha. A Mãe bebias as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo. Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima. De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.
E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija. A subida levou tempo. Foi preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.
Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo. Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.
Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, de que todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho. E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho. Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio de felicidade, sabia um ninho.
A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho. E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.

Miguel Torga, Bichos

Thursday, November 10, 2016

Talvez um dia te lembres



talvez num dia
em que de mim já nada exista
te lembres de dois braços
que te abraçavam convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue te corra pelo peito
e as mãos
essas
abandona-as...

Mário-Henrique Leiria

Silêncio



Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo de palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade

Tuesday, November 8, 2016

Pedi tão pouco à vida



Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se na minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não incarna a substância de milhares de vozes, a fome de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência… 

Thursday, October 20, 2016

O Coração das Trevas




O dia acabava numa paz de radiações calmas e esplêndidas. O brilho da água era pacífico; sem nuvens, o céu, todo ele benigna e luminosa imensidão, e a própria névoa era uma gaze leve, nos pântanos do Essex, presa às encostas arborizadas do interior e estendida em pregas diáfanas pela costa baixa. Só a oeste, suspensa por cima das extensões visíveis, minuto a minuto a treva se ia fazendo mais opaca e como que enraivada contra o Sol prestes a tocar-lhe. 

Por fim, numa queda de curvatura imperceptível, o Sol desceu e, de branco-incandescente passou a vermelho-turvo, sem raios nem calor, como se fosse ficar apagado de repente e ferido de morte, ao tocar aquela escuridão caída em peso sobre a humanidade.


Joseph Conrad

Monday, October 3, 2016

Falamos



e tu sussurras:
- não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.
tu sorris, dizes:
- vem, sem medo, pela aridez do meu corpo.
no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. é tempo de ta devolver. é tempo de te reconheceres nela.
Al Berto

Tuesday, September 27, 2016

O Outono



O outono. A nossa barca fundada nas brumas imóveis dirige-se para o porto da miséria, a enorme cidade no céu maculado de fogo e lama. Ah! os andrajos putrefactos, o pão ensopado de chuva, a bebedeira, os mil amores que me crucificaram! Então nunca mais acaba este vampiro, que reina sobre milhões de almas e de corpos mortos e que serão julgados! Revejo-me com a pele remordida pela lama e pela peste, com vermes enchendo-me os cabelos e as axilas e outros ainda maiores no coração, estendido entre desconhecidos sem idade, sem sentimento... Podia ter morrido ali... Que pavorosa evocação! Abomino a miséria!
E receio o inverno por ser a estação do conforto.
— Por vezes, vejo no céu praias sem fim cobertas de alvas nações em regozijo. Uma grande nau de ouro, por cima de mim, desfralda os seus panos multicores à brisa da manhã. Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas. Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas. Pensei poder adquirir poderes sobrenaturais. Pois bem, tenho de enterrar a minha imaginação e as minhas recordações! Uma bela glória de artista e de contador de histórias destruída!
Eu, que me intitulei mago ou anjo, dispensado de qualquer moral, restituído ao chão, em demanda de um dever, e a áspera realidade para espreitar!



Arthur Rimbaud

Thursday, September 22, 2016

E as incessantes oscilações do meu interior barómetro ao longo desses dez dias: saber que nunca hei-de esquecê-la; desejar vir a esquecê-la; recear vir a esquecê-la; ter a certeza de que a esquecerei e de que não a esquecerei.

David Mourão-Ferreira

Wednesday, September 21, 2016

O tempo dele não passou



Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.

Maria do Rosário Pedreira

Saturday, September 17, 2016

Somos a carne de um fruto atordoado



Somos a carne de um fruto atordoado.Somos o dia aparatoso nas escadas, depois navios ancorados carregados de bruma. Bebemos o sangue dos poentes como animais incrédulos de morrer.
Quando tens frio, risco-me como fósforo na tua pele ondulada. E dá-se o acidente nas gavetas.
As tuas pernas afogam-se em poços de água, eu tenho os braços engessados numa parede violenta - porém beijámo-nos na boca lenta da madrugada.
O meu nome acordou povoado pelo teu nome.

Vasco Gato

Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres




Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

Clarice Lispector

Saturday, September 10, 2016

O Adeus de Carminha



Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. (…) A janela tem feições de humano transfigurado em transparência, já que a quadrícula esventra dois olhos e uma testa de cantaria abaulada, nariz de batente de alto a baixo, e a boca, maior do que a própria transparência, só aberta quando de par em par. Então Carminha pousa-lhe os seios no peitoril, arredondando as costas. Torcido o lenço branco rasgado da borda de um lençol, puído de sonos e lavaduras, agora afogado de água.

Lídia Jorge

Tuesday, September 6, 2016

Só tu tens asas para dar



Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim. 
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?
Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

José de Almada Negreiros

E serás o meu futuro



Foste o meu passado
e serás o meu futuro
mesmo quando o futuro
já tiver acabado
O princípio e o termo
a luz e o escuro
quando o fim do presente
já tiver terminado

Maria Teresa Horta

Monday, September 5, 2016

A palma da minha mão


Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou na boca dos livros
Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no interior dos homens. 
Podes mandá-la àqueles que mais amas
Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios inimigos.
Podes desarmá-la para propagares as chamas.
Dou-te, como desde sempre, o poder
De escreveres na pele da minha mão
As promessas que te fiz.
Sabes que existo
E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.

Daniel Faria

Saturday, September 3, 2016

O meu coração bate


Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
José Tolentino Mendonça

Wednesday, June 15, 2016

O Movimento Total



Como constrói o bailarino o seu gesto? 

Em que este se distingue de um gesto comum? No gesto comum, o braço entra em movimento no espaço porque a acção impõe do exterior uma deslocação ao corpo; pelo contrário, no gesto dançado, o movimento, vindo do interior, leva consigo o braço. Movimento ritmado que "transporta" o corpo, esse mesmo corpo que é o seu suporte. (…) Cada gesto prolonga-se para além de si próprio, numa continuidade tecida pelo ritmo da dança. 

Eis o que parece decisivo: o gesto dançado abre no espaço a dimensão do infinito. Seja qual for o lugar onde se encontra o bailarino, o arabesco que descreve transporta o seu braço para o infinito. As paredes do palco não constituem um obstáculo, tudo se passa no espaço do corpo do bailarino. Contrariamente ao actor de teatro cujos gestos e palavras reconstroem o espaço e o mundo, o bailarino esburaca o espaço comum abrindo-o até ao infinito. Um infinito não significado, mas real, porque pertence ao movimento dançado. 



José Gil

Sunday, June 5, 2016

Um Poço



e tu sussurras:
- não, não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.
tu sorris, dizes:
- vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.
no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem. é tempo de ta devolver. é tempo de te reconheceres nela.
Al Berto

Monday, May 23, 2016

O Teu Riso


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda

Tuesday, April 26, 2016

Dispersão (Mário de Sá Carneiro: 19/05/1890 - 26/04/1916)


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é familia,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).
O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.
Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.
Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.
Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo
A sua bôca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.
(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)
E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.
Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.
Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...
Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...
E tenho pêna de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...
Desceu-me nalma o crepusculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.
Alcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.
Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Mário de Sá-Carneiro

Monday, April 25, 2016

Do Sentimento Trágico da Vida


Não há revolta no homem 
que se revolta calçado. 
O que nele se revolta 
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.


Natália Correia

Wednesday, April 13, 2016

Há Palavras que nos Beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

Descascando a Cebola


A recordação gosta do jogo das escondidas das crianças. Entrincheira-se. Tende para as belas palavras e gosta do adorno, muitas vezes sem fazer esforço. Contradiz a memória, que se dá ares pedantes e embirra em ter razão.

Gunter Grass

Monday, April 11, 2016

As Palavras Escolhidas



Não sei, não sei, não, não sei,
não sei, nem ninguém o sabe,
porque este dever me cabe,
dever ou devir, não sei.
Outros, que um dia virão,
saberão e entenderão
o que nenhum de nós sabe.
Outros dirão o motivo
por que é que me exprimo assim,
por que luto e por que vivo
tão alheado de mim.
Por que se impõe, por que oprime
este martírio comum,
esta expiação sem crime
na cela de cada um.
Por que, sem escolha, me entrego
nas palavras escolhidas,
sementes evoluídas
cumprindo um destino cego.
Tudo então será fácil. Tudo.
E todos o entenderão.
Todas as gotas deste caudal mudo
no mesmo longo leito correrão.
Então se entenderá que a voz do poeta,
que o metal da trompete e as tintas do antraceno,
que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,
que o choque do neutrão da experiência secreta,
que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,
tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.
E então todos dirão:
Claro! Evidentemente!

António Gedeão

Friday, April 8, 2016

Explicação da Eternidade



devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto

Thursday, April 7, 2016

Sem Resolução


Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens
Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos.

José Tolentino Mendonça

Monday, April 4, 2016

Retrato do Artista quando Coisa



A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros

Saturday, April 2, 2016

A Cabeça no Ar


As coisas melhores são feitas no ar,
andar nas nuvens, devanear,
voar, sonhar, falar no ar,
fazer castelos no ar
e ir lá para dentro morar,
ou então estar em qualquer sítio só a estar,
a respiração a respirar,
o coração a pulsar,
o sangue a sangrar,
a imaginação a imaginar,
os olhos a olhar
                         (embora sem ver),
e ficar muito quietinho a ser,
os tecidos a tecer,
os cabelos a crescer.
E isso tudo a saber
que isto tudo está a acontecer!
As coisas melhores são de ar
só é preciso abrir os olhos e olhar,
basta respirar.

Manuel António Pina

Thursday, March 31, 2016

Imre Kertész (9/11/99 - 31/03/16)


Morrer é facil
a vida é um enorme campo de concentração
que Deus construiu na terra para os homens
e que o Homem aperfeiçoou
em campo de extermínio do homem
Ser suicida é tão-só
enganar os guardas
fugir desertar rir
na barba dos que ficaram
Neste grande lager da vida
em que nem para fora nem para dentro e nem para a frente nem
para trás
de vidas suspensas
neste mundo infame envelhecendo
sem que o tempo avance...
aqui aprendi que a revolta é
FICAR VIVO
A grande insubmissão é
vivermos até ao fim
e também a grande humildade que
juntos devemos a nós mesmo
que dar continuidade à vida
de novo começar todos os dias
de novo viver todos os dias
de novo morrer todos os dias

Imre Kertész

Monday, March 21, 2016

Cada árvore é um ser para nós



Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.

António Ramos Rosa

As Palavras Escolhidas


Não sei, não sei, não, não sei,
não sei, nem ninguém o sabe,
porque este dever me cabe,
dever ou devir, não sei.
Outros, que um dia virão,
saberão e entenderão
o que nenhum de nós sabe.
Outros dirão o motivo
por que é que me exprimo assim,
por que luto e por que vivo
tão alheado de mim.
Por que se impõe, por que oprime
este martírio comum,
esta expiação sem crime
na cela de cada um.
Por que, sem escolha, me entrego
nas palavras escolhidas,
sementes evoluídas
cumprindo um destino cego.
Tudo então será fácil. Tudo.
E todos o entenderão.
Todas as gotas deste caudal mudo
no mesmo longo leito correrão.
Então se entenderá que a voz do poeta,
que o metal da trompete e as tintas do antraceno,
que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,
que o choque do neutrão da experiência secreta,
que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,
tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.
E então todos dirão:
Claro! Evidentemente!
António Gedeão

Mostrai que mostrais


Mostrai que mostrais. Entre as diversas atitudes
Que mostrais ao mostrardes como os homens se comportam
Não deveis esquecer a atitude de mostrar.
Que cada atitude se funde sobre a atitude de mostrar.
O exercício é o seguinte: antes de mostrardes
Como é que um homem trai, ou se torna ciumento,
Ou fecha o negócio, olhai para o espectador
Como se quisésseis dizer-lhe:
E agora atenção, este homem vai trair, e vai trair assim.
Eis como ele se transforma quando o ciúme o assalta, eis o que
fez
Depois de fechar o negócio. Deste modo,
A vossa demonstração acompanhará a atitude de mostrar,
De proferir o que já está preparado, de finalizar a tarefa,
De continuar eternamente. E assim mostrareis
Que todas as noites mostrais o que mostrais, que já o mostrastes muitas vezes,
E a vossa representação terá qualquer coisa do trabalho do tecelão,
Qualquer coisa de artesanato. O que faz parte da demonstração,
A vossa aplicação constante para facilitar
A observação, para permitir o melhor entendimento
De cada acontecimento, tornai-o bem visível. E assim
Atraiçoar, fechar um negócio,
Ter ciúmes, tudo isso passará a ser
Uma função quotidiana como qualquer uma destas: comer,
Dizer bom dia ou
Trabalhar. (Porque vós trabalhais, não é verdade?) E por trás
Dos vossos personagens, vós permanecereis visíveis, como aqueles
Que vós apresentais.
Bertold Brecht

Pedras que ficaram nos bolsos


Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.
Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.
José Mário Silva

Não se mete o passado na algibeira


Vivem no meio de bens herdados, de presentes, cada móvel delas é um presente. Relógios de sala, medalhas, retratos, conchas, pesa-papéis, biombos, xailes. Têm armários cheios de garrafas, de panos, de roupa velha, de jornais; guardaram tudo. O passado é um luxo de proprietário. Onde havia eu de conservar o meu? Não se mete o passado na algibeira; é preciso ter casa para o arrumar. Possuo apenas o meu corpo; um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações; elas passam através dele. Não devia queixar-me: tudo quanto quis foi ser livre. (…) Lá está outra vez a olhar para mim. Desta vez vai-me falar; contraio-me todo. Não é simpatia que há entre nós: somos parecidos, é o que é. O homem está sozinho como eu, mas mais enterrado que eu na solidão. Deve estar à espera da sua Náusea ou de qualquer coisa nesse género. Há agora, portanto, pessoas que me reconhecem, que pensam, depois de me ter encarado: "Aquele é dos nossos." E então? Que é que ele quer? Deve saber bem que não devemos prestar nenhum socorro um ao outro. As famílias estão nas suas casas, no meio das suas recordações. E nós aqui, dois destroços sem passado.
Jean-Paul Sartre

Se fosses um peixe


Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias - cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil - e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso - somos assim obscuros.

Herbero Helder

As Gaivotas também ali estão


A criança está ali, olha para o papagaio, é um desenho vermelho no céu. Está um pouco afastada dos outros, não deve estar a fazer de propósito, deve ser sempre assim. Como se involuntariamente aquele rapaz se atrasasse sempre em relação às outras crianças. Quando o papagaio caiu morto olhou para ele, depois sentou-se na areia a olhar; outra vez aquilo, um papagaio que tinha morrido.
As gaivotas também ali estão, voltadas para o largo, com a plumagem alisada pelo vento. Ficam assim pousadas na areia à espreita da desorientação da chuva. E de repente gritam, ensurdecedoras, metem medo. Depois fogem sem razão para o largo e voltam de repente. São malucas as gaivotas, dizem as crianças.
Marguerite Duras

Partiu-se a Gargalhada


Sabes, Wendy, quando o primeiro bebé riu pela primeira vez, a gargalhada partiu-se em mil bocados, que desataram todos a pular cada um para seu lado, e foi essa a origem das fadas.
J. M. Barrie