Saturday, January 28, 2023

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Jorge Amado

 


A primavera desperta sorrisos. E no primeiro dia de primavera no parque o gato Malhado acordou e sorriu um sorriso tão grande que desencadeou toda a trama deste delicioso livro. Quem diz que é infantil desengane-se: traz-nos leveza com uma linguagem lírica, traz-nos amor com rodopios, lembra-nos a diferença e o preconceito com criancice.

A história de amor entre um gato sisudo e uma andorinha rebelde e sorridente foi contada à Manhã pelo Vento, que a fez atrasar-se a apagar as estrelas, e foi depois contada pela Manhã ao tempo, em troca de uma rosa azul. Da história ficamos com os jogos de amor entre o malhado e a Sinhá, com os rumores à sua volta, as críticas sempre sussurradas, de quem não aceita um amor assim porque nunca tal se viu. Guardamos a inocência de um soneto de amor e a dura crítica do Doutor Sapo Cururu, que muitos sorrisos me deu.

Dividida pelas estações do ano, com importantes parêntesis, esta história de amor não é, de todo, uma história para crianças, também porque não viveram felizes para sempre. Viveram com as memórias de momentos felizes para sempre.

Jorge Amado escreveu esta história em 1948, no primeiro aniversário do seu filho João Jorge. É este quem a encontra, em 1976, a dá a ler a Carybé, que a ilustra com estes traços leves e coloridos que nos prendem. Depois disto, Jorge Amado não tem outra hipótese que a levar para publicação. Uma obra-prima que nasce do amor e que não fala senão de amor. E a Manhã ganhou do Tempo a rosa azul.

«A manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá. Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.

Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga.» p. 13


A Breve Vida das Flores, Valérie Perrin

 

«Os meus vizinhos são determinados. Não têm preocupações, não se apaixonam, não roem as unhas, não acreditam no acaso, não fazem promessas nem barulho, não têm segurança social, não choram, não procuram as chaves nem os óculos, o telecomando, os filhos ou a felicidade.

Não leem, não pagam impostos, não fazem dieta, não têm preferências, não mudam de opinião, não fazem a cama, não fumam, não fazem listas, não pensam duas vezes antes de falar. Não têm substitutos.

Não são graxistas, ambiciosos, rancorosos, sedutores, mesquinhos, generosos, invejosos, desleixados, limpos, sublimes, curiosos, viciados, avarentos, sorridentes, maliciosos, violentos, apaixonados, mal-humorados, hipócritas, dóceis, duros, mudos, maus, men-tirosos, ladrões, jogadores, corajosos, falsos, crentes, pervertidos, otimistas.

Estão mortos.

A única diferença entre eles é a madeira do caixão: carvalho, pinho ou mogno.» p. 9

 


É assim que começa A Breve Vida das Flores. E se este primeiro capítulo não me tivesse agarrado logo, teria o início do segundo, numa perfeição sem pausa:

 

«Chamo-me Violette Toussaint. Era guarda de passagem de nível, agora sou guarda de cemitério.

Saboreio a vida, bebo-a em pequenos goles como chá de jasmim com mel. E quando chega o final de tarde e os portões do meu cemitério se fecham e a chave se pendura à porta da minha casa de banho, fico no paraíso.

Não o paraíso dos meus vizinhos da frente. Não.

O paraíso dos vivos: um trago de porto -- colheita de 1983 -, que me traz José-Luis Fernandez todos os dias 1 de setembro.

Um resto de férias vertido num cálice de cristal, uma espécie de verão extemporâneo que desarrolho por volta das sete da tarde, faça chuva, neve ou vento.

Dois dedais de líquido rubi. O sangue das vinhas do Porto.» p. 10

 

Nunca um cemitério foi um lugar tão encantador como com este livro. Nunca uma profissão que nem me lembrava de existir e, se pensasse nela, a pensaria com sombria amargura, se mostrou tão delicada. Delicadeza é a palavra que penso melhor definir este livro. Delicadeza no amor, no viver o abandono, delicadeza na dor e na saudade.

O livro era bom o suficiente sem precisar de um mistério, de uma morte por apurar, de um amor extraconjugal para perceber. Mas assim tornou-se incrível. Agarrou-me e levou-me para o universo de Violette, que é o que se espera que os livros façam, fazer-nos viajar. A dor exposta era tanta que muitas vezes abrandava a leitura, mas uma dor bonita, se se puder assim chamar a alguma dor tão voraz e absoluta como aquela.

Nutri grande carinho pela Célia e pelo Sasha, os grandes pilares que Violette conheceu. Senti ternura pelo Nono, pelo Elvis e pelo Gaston, os irmãos Luchini, o padre Cédric. Julien Seul tomou um bocadinho do meu coração, mas adorei o diário da sua mãe Irène Fayolle e da sua paixão por rosas e por Gabriel Prudent. Adorei os nomes, as alcunhas, os sobrenomes. Toussaint, Seul, Prudent. Os pormenores que dizem mais. A violeta, cor de luto delicado.

A breve vida das flores e as flores a ajudarem a dar de novo vida. Às memórias e ao quotidiano. Foi um livro fenomenal.

Sunday, January 8, 2023

Americanah — Chimamanda Ngozi Adichie

Sempre fui uma leitora ávida, mas estive três longos anos sem conseguir dedicar-me à leitura. Um período menos firme, aliado depois a faltas de concentração que a chegada de uma filha pouco dada a dormir trouxe e também à exigência de um novo trabalho a que quis dar de mais, tudo isso desmoronou os meus hábitos de leitura e refugiei-me na poesia, fiel companheira de escassas palavras a serem tão grandes na minha cabeça. 

No verão passado consegui retomar os velhos hábitos, a medo, negando alguns livros pelo tamanho (eu, que sempre tive uma paixão pelos russos muito pelo tamanho das suas obras, que fundavam raízes com tempo e solidez) mas escolhendo outros belíssimos (quero falar deles um destes dias). E no Verão neguei a americanah, que a amiga bibliotecária me aconselhou. Que não, que era muito grande, que estava desabituada. 




E em dezembro a amiga bibliotecária volta a pôr-mo nas mãos a dizer “tens de ler isto, miúda!”. E trouxe-o comigo pouco crédula — não na obra, da qual já tinha ouvido falar várias vezes, mas na minha capacidade de resistir a mais de 700 páginas. Meteram-se as festividades e pouco lhe liguei. Mas o ano começou e a história começou a ser um pouco minha. E há dois ou três dias atrás a história deixou de ser um pouco minha: eu passei a ser a Ifemelu. Passei a sofrer com a pouca sorte, a irritar-me tantas vezes pelo desprendimento, a ansiar Obinze e a querer saber do seu destino. Simpatizei com a tia Uju, com Dike, com a mãe de Obinze, irritei-me com Ranyinudo e todas as mulheres nigerianas de uma forma geral. Tive uma certa pena de Blaine, pouca simpatia por Curt. Deixei tarefas domésticas para trás porque cada bocadinho era para o livro, que deixou de ser livro e foi quase uma conversa telefónica com uma amiga, tal a cumplicidade que ganhei. 

E estas emoções todas devo-as não ao meu papel de leitora, mas ao trabalho de Chimamanda Ngozi Adichie. Um livro sem pressa, pensado, maturado, cheio de pormenores que se adensam e ganham forma na nossa realidade, ficam mesmo ali ao lado embora, saibamos, reflitam uma realidade cuja identidade não é a nossa, cidadãos brancos, europeus, que não nos questionamos sobre as complexidades que um tom de pele transporta. Não nos basta dizermos que não somos racistas, precisamos conhecer os contornos quotidianos da raça: as dificuldades, as desconfianças, mas também os sabores, os cheiros, a humidade do ar, as cores. Comi arroz jollof uma única vez, numa festa multicultural londrina, onde nem eu nem o meu marido conhecíamos os anfitriões. Nessa noite engravidámos, e ainda hoje sorrio e acuso o arroz. Nestes dias sentei-me à mesa com Ifemelu várias vezes a comer o seu jollof. E é isto que um bom livro nos faz, permite-nos entrar sem bater à porta. Literariamente, o meu 2023 começa mesmo muito bem.




«(…) e, no entanto, havia cimento na sua alma. Já lá estava há algum tempo, uma doença de fadiga matinal, de desolação, de falta de fronteiras pessoais. Provocava-lhe anseios amorfos, desejos sem forma, breves vislumbres imaginários de outras vidas que poderia estar a viver, que ao longo dos meses se foram fundindo em saudades lancinantes do seu país.» p.16


«Ela ouviu as suas palavras como uma melodia e sentiu a respiração entrecortada, ofegante. Não choraria, era ridículo chorar ao fim de tanto tempo, mas tinha os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas, um pedregulho no peito e um ardor na garganta. As lágrimas faziam-lhe comichão. Não emitiu qualquer som. Ele pegou na mão dela, ficaram de mãos dadas em cima da mesa, e entre eles cresceu um silêncio antigo que ambos conheciam. Ela estava dentro deste silêncio e estava em segurança.» p. 657


Editora D. Quixote, 2013, tradução de Ana Saldanha