Monday, October 16, 2023

Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo

 


Isabela Figueiredo venceu, na semana passada, o Prémio Livreiros Bertrand para Autores Lusófonos e este prémio deu-me uma grande satisfação. Um Cão Meio do Caminho, de Isabela Figueiredo, foi um livro que comprei no início do ano, com algum entusiasmo. Li A Gorda, lá para 2017, 2018 e adorei. Foi um livro que me acompanhou, às vezes ainda acompanha. Já não me lembro dos nomes, dos pormenores, mas lembro-me dele com alguma frequência. Por isso não hesitei muito e comprei o Cão no Meio do Caminho. Mas o livro chegou e eu continuei nos meus afazeres, nas minhas leituras. E à medida que o tempo passava, olhava para ele e pensava: levo-te para a praia. E assim foi: entrou na mala, depois no saco de praia, pelo meio de toalhas, protetores, pás, ancinhos e polvos e peixes de plástico. Apanhou água salgada e areia, muita areia, que já lá vai o tempo em que ia para a praia para por as leituras em dia. Agora sou mais engenheira civil: construo castelos, barcos, fortalezas, piscinas. Mas consegui. Entre uma construção e outra, na pausa do lanche, à noite. Não foi a leitura consistente que queria, foi a leitura que consegui. E estou a acostumar-me a esta ritmo novo de leitura, tantas vezes interrompido e sem hora certa de ser retomado. Mas se o estou a sublinhar aqui é porque foi doloroso interromper este livro. Às vezes não é extremamente custoso. Neste caso foi. Cada frase interrompida custava-me horrores, retomá-lo pedia-me para voltar atrás e embeber-me de novo. 


Sofremos todos de solidão, é um mal contemporâneo, sabemo-lo. Sofremos ainda mais, tantas vezes, com a incapacidade de solidão. Mas vivemos como vulgarmente se chama “dentro do sistema”, seja ele qual for. Temos família, rotinas de trabalho, colegas, amigos, amores, amantes. Com mais ou menos problemas, numa relação profilática. Mas quem se coloca à margem desse sistema, por prezar a liberdade, por desconfiança, por falta de esperança ou simplesmente por desprendimento encontra uma solidão nova. E um rótulo para os outros. O encontro de duas destas solidões desencadeia uma história que prende, cria empatia, vontade de isolamento às vezes. 


«Todos temos uma prisão, por vezes secreta. Aquilo que ainda não se realizou. Aquilo que nunca deveria ter acontecido. Prisões simbólicas que as nossas almas habitam no silêncio.» p. 148


A linguagem clara, mas sólida, que adentra a nossa experiência pessoal, as nossas memórias, o nosso entendimento dos outros e da vida, o questionamento constante. É isto que Isabela Figueiredo nos dá.