Friday, December 30, 2022

Um Postal de Detroit — João Ricardo Pedro



Gosto muito de autores portugueses. Durante muitos anos, dediquei-me apenas aos grandes clássicos da literatura mundiais e desprezei os nossos lusitanos, dos quais só admirava a poesia. Uma vida é demasiado pequena para ler todos os livros que valem a pena. Por isso pensava que um país tão pequenino como o nosso não podia ter assim tantos bons escritores. Com o tempo, felizmente, deixei de procurar tabelas e comecei a descobrir novos nomes. Tive algumas desilusões, é certo; mas tive sobretudo boas surpresas. E habituei-me aos portugueses. 

João Ricardo Pedro venceu em 2011 o Prémio Leya com O Teu Rosto Será o Último, mas escolhi Um Postal de Detroit, um livro sobre a ausência e sobre o movimento constante em procura de paz.


O mote que serve esta narrativa é a conhecida colisão de dois comboios em Alcafache, a 11 de Setembro de 1985. Algumas das vítimas nunca chegaram a ser identificadas. Marta, a irmã do narrador, é uma delas. Ficam os seus cadernos de desenho, com traços do seu dia a dia, que é preciso agora perseguir. Porque razão estaria Marta naquele comboio com destino a Paris? Porque aparecem as suas sapatilhas numa foto de arquivo? Porque razão apareceu apenas o seu cartão de estudante por entre os destroços? A recriação da vida de Marta é feita pelo irmão, num contexto imprevisível onde aparecem personagens memoráveis como boxeurs, presidiários, prostitutas ou anjos. A par disso, índios, cavaleiros e xerifes. E a mãe, personagem constante mas distante, a contrastar com Silvana, a empregada zeladora. Entramos também, de mansinho, um quarto de hospital. A maior presença neste romance é, contudo, a ausência de si mesmo, narrador, nos cadernos de desenho da irmã. 


É uma narrativa que não procura um encadeamento, vai-se revelando, entre fantasia, memórias e realidade. Foi o que mais aprovei: não é assim que se constitui uma vida? 

Vamos Comprar Um Poeta — Afonso Cruz

 


Quando falamos de Afonso Cruz dificilmente conseguimos dizer alguma coisa que saia do habitual, ou que contrarie a opinião comum. Nem sequer vou tentar fazê-lo, portanto. Só o descobri em 2015 numa altura em que a falta de concentração e o stress me tinham retirado o hábito da leitura. A cada segunda página de um novo livro cansava-me, punha-o de lado. Todos os livros me pareciam enfadonhos (e eu que sempre fui o que carinhosamente se chama um ratinho de biblioteca). Costumo dizer que o Afonso Cruz me salvou em termos literários. Por tudo isto, tento não abusar na sua leitura e ir deixando livros por ler, ter sempre uma dose de boa literatura à mão para qualquer eventualidade, como um ben-u-ron.


Vamos Comprar um Poeta é um livro pequenino, mas que assume o tamanho do horizonte de cada leitor. É um livro de palavras pesadas — cotação, patrocínios, produtividade, investimento, finanças — e um livro de palavras leves — borboleta, raiz, janela, mar, poema. Cabe ao leitor colocá-las na balança que equilibra a utilidade e a inutilidade. Ou tomá-las na mão e sentir-lhes realmente o peso. Um livro tão pequeno julgo que é mesmo de peso que trata. O peso da realidade economicista, o peso da contribuição para a dinâmica social, o peso do lucro. E, por outro lado, o peso do ócio, o peso da inutilidade e o peso da metáfora, que nada tem a ver com a mentira. Afinal para que serve a poesia se podemos reduzir tudo a números? Se temos o pragmático do nosso dia-a-dia para quê perturbá-lo com o inútil? Um poeta comprado por uma família que tem a preocupação constante de fazer a economia circular vai obrigá-los a refletir e a balancear valores e necessidades. 

E se logo no início do livro nos choca: «Gostava de ter um poeta. Poemos comprar um.», à medida que a leitura vai fluindo (e flui mesmo, este é um livro que não se pousa a meio, abre-se e leva-se até ao fim, de uma assentada), o choque inicial vai-se transformando em agonia: aquela luta interna que travamos com a consciência e com as vísceras. Tanto que, quando a meio do livro nos é descrito «Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares.», isto já não nos choca como os momentos iniciais. Já só nos empurra mais um bocadinho para bolsas e cotações. 


Neste livro, se existe um Belzebu este assume o nome de Bancarrota. E uma divindade não poderia ter outro nome que não Mamon. Mas no meio disto tudo, uma janela sobre o mar pode ser uma frase escrita a caneta de feltro. Numa parede de um vão de escada. 

Stoner — John Williams

 


Este verão decidi deixar que outras pessoas influenciassem as minhas escolhas literárias. Julgo que é a melhor forma de descobrir títulos que, não fosse assim, permaneceriam escondidos. E entramos também, em grande escala, no universo da pessoa que nos aconselha, no seu dia-a-dia e nas suas paixões. Puseram-me este livro nas mãos e disseram: vais adorar. E eu comecei a leitura e cada vez ficava mais surpreendida: uma história demasiado calma, às vezes a roçar o aborrecido; muito bem escrita, em certos momentos quase demasiado bem escrita, se é que me faço entender.

Eram tão limpas todas as descrições que parecia que lhes faltava energia, pulsão. Os diálogos curtos, monocórdicos. Não existiam falhas nem aberturas que as possibilitassem. Às vezes fechava o livro e lia na capa as pequenas considerações que outros escritores tinham feito ao livro e lia coisas como «magnífico», «brilhante» ou «quase perfeito» e sentia-me confusa comigo mesma, com a incapacidade de descobrir os mesmos atributos no que lia. A leitura não chegou ao enfado, mas tive medo que isso acontecesse, ainda nas primeiras páginas. 


Mas não demorou muito para que, de um momento para o outro, e não consigo especificar quando, mas, ao mesmo tempo que sentia uma crescente empatia pela personagem, adentrasse no ritmo sereno de um narrador ameno e sem pressas. Só o ritmo da leitura galopava, o que estava inscrito nas páginas era de um abrandamento quase acidental. 

E julgo que acidental é a palavra que melhor descreve esta personagem e toda a sua história. Foi de forma acidental que William Stoner foi para a universidade; foi de forma acidental que descobriu a paixão pela literatura; foi de forma acidental que casou; que conheceu o grande amor; que teve sucessos e fracassos na sua carreira. Mas Stoner é tudo menos uma personagem acidental: se a sua vida tomou um rumo um tanto ou quanto ao acaso, sem que nada o sugerisse, a sua personalidade parece que nunca perdeu as suas origens, ao invés adensou-as. De trabalhador rural a professor de literatura inglesa numa universidade, parece que nunca se sentiu verdadeiramente encaixado em nenhum dos ambientes. De um herdou a quietação e o trabalho, tal como os seus pais, pouco faladores e extremamente dedicados, do outro a cultura, mas também a perturbação.

O estudo e a vocação para professor, que estava bem no fundo dos seus medos e descobriu a pulso, são o refúgio de quem acompanha a vida só porque sim, sem um murro na mesa ou uma voz mais elevada. Vejo Stoner numa procura constante de sentido, não só para si, como para o mundo. Pode sê-lo ou não, cada leitor o dirá.


O que mais me surpreende — e fascina, até — neste livro, é ter sido publicado pela primeira vez em 1965, mas só há poucos anos ter sido descoberto na sua perfeição e traduzido. Quantos leitores mais podia ter deslumbrado nestes anos todos? O que o terá levado a ficar "perdido"? O facto é que conseguiu atravessar décadas de uma maneira impressionante. Importa lê-lo, realmente.

Os Loucos da Rua Mazur — João Pinto Coelho

 


Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho, recebeu o prémio Leya em 2017. Só isto já seria suficiente para me assegurar a qualidade, mas li a pequena descrição da capa com alguma apreensão: «Na Polónia ocupada por soviéticos e alemães, o horror vem de quem menos se espera». E tive algum receio. Em primeiro lugar porque um romance histórico exige demasiado, para que consiga equilibrar justamente esses dois conceitos, o de romance e o de história, sem diminuir ou apagar qualquer um deles, engrandecendo o outro. Por outro lado, a segunda guerra mundial e todo o massacre a ela associada fazem parte dos meus interesses pessoais há bastante tempo e não queria encontrar detalhes fora do lugar. Não aconteceu.


O romance desenrola-se em três tempos distintos: antes, durante e depois da guerra (este último tempo ora gira em torno do pós guerra ora regressa aos tempos de hoje), e nele encontramo-nos com três personagens principais, onde este principal tanto se centra em Eryk, como em Yankel ou em Shionka. Sem roubos de protagonismo. 

Sem querer desvendar a narrativa, que me surpreendia a cada capítulo, julgo que este é um livro acima de tudo sobre o tempo e a memória. Sobre a visão, também. A visão diferente de três amigos ao longo dos tempos, ironicamente sendo um deles cego. Três perspetivas em três tempos. Julgo que seria uma síntese acertada. E três perspetivas em três tempos exige um jogo de cintura que agarrou a minha leitura. Obrigava-me a mim mesma a parar, a levar a angústia ou a surpresa, ou o sorriso para o dia seguinte. É um daqueles livros que não queremos que acabe, embora ansiemos cada passar de página. 


Theodor Adorno, filósofo contemporâneo, disse que «escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro». Entendemos o significado desta expressão. Como pode nascer poesia depois de uma humanidade anulada como o foi durante a segunda guerra? No entanto, é Eryk, que se tornará um famoso escritor, que nos mostra a certa altura, regressado de um campo de trabalhos forçados, uma realidade diferente: 

«(…) também tinha escrito uns contos, mas precisava da poesia para explicar “a que cheiram cem tipos espremidos num vagão”. (…) Eryk vinha diferente, escondia-se nos versos para não ter de dizer o que não queria (…).».

E se Eryk se destaca pela palavra, Yankel destaca-se pelos sentidos apurados em sensibilidade pura, a fazer frente à falta de visão. E Shionka pelo corpo quase selvagem, que expressa mais que a boca muda. Três inseparáveis que a guerra dividiu, mas que a Paris de 2001 — tão distante da Polónia das décadas de 30 e 40 — ligará de novo para juntar memórias conscientes e dolorosas. Para as personagens e para o leitor. Mas que valem realmente a pena. E não é um livro sobre a guerra ou a sobrevivência, nem sobre a religião ou o amor. É um livro sobre a humanidade no seu estado mais inocente, mas também mais cru e instintivamente animalesco.

Os Canibais, Álvaro do Carvalhal

 


Há uns anos, uma editora, uma verdadeira editora — daquelas pessoas já tão escassas que mais do que editar livros em prol do lucro os anima e os esparge por todos aqueles que encontra — depositou-me nas mãos, inusitadamente, dois pequenos tesouros: o Mistério do Mário de Sá Carneiro e Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal. Se o primeiro, apesar de pequeno, já continha em si o peso do confiado, o segundo nada dizia à minha pobre cultura literária. 

Não furei as minhas leituras do momento para lhe dar lugar. Deixei-o sossegado na estante até que uma viagem de comboio me exigiu que procurasse um livro leve e com letra acessível não só à minha miopia como também à sonolência e ao embalo de viagem. Cada livro também contém em si, sempre, um lado pragmático e ajustável às circunstâncias. E Os Canibais entraram na mochila. Li a primeira página umas quatro ou cinco vezes. Não por me perder, não por não perceber, mas pelo êxtase da descoberta. 

Descobri o Edgar Allan Poe português. Mais do que isso, porque é sempre desconsideração a comparação de um autor com outro sobejamente célebre, digamos que descobri mais um dos autores portugueses esquecidos. Incompreensivelmente esquecido ou desconsiderado. 

Por entre as descrições dos bailes de outrora, dos rendados dos vestidos e dos cochichos de donzelas e cavalheiros, dá-se um enamoramento. Um enamoramento com três ângulos. A descrição é feita com todos os detalhes do realismo romântico, numa sátira social cheia de ironia e com um narrador sempre presente e que conversa ludicamente com o leitor, interrompendo constantemente a narrativa:


«O meu conto é amador do sangue azul; adora a aristocracia. E o leitor há-de peregrinar comigo pela alta sociedade; hei-de levá-lo a um ou dois bailes, despertar-lhe o interesse com mistérios, amores e ciúmes que se armazenam por esses romances de amar ao efeito. Ora ouça que eu principio moldando-me pela velha costumeira: A abóbada azul do céu alumiava com milhões de estrelas os coruchéus, obeliscos e arcadas da decrépita arquitetura da cidade. (…)»


Margarida (Dona Margarida) apaixona-se perdidamente pelo misterioso Visconde de Aveleda. No entanto, D. João tem por ela um amor inegável. É este o mote, que não tem em si nada de novo ou de particularmente chamativo. Importa o que vem a seguir: a boda, a noite que a sucede e todo o tormento que daí advirá. Mais uma vez Álvaro do Carvalhal quer satirizar a morte, a solução tão limpa do romantismo, e carrega-la de horror. A narrativa oscila entre a sátira, o mistério, o fantástico e o desvelar do terror, num jogo de cintura equilibrado. E se o canibalismo começa por ser um problema que leva personagens a pensar no suicídio, a lembrança de uma fortuna a receber dissuade-os imediatamente. Até ao final, a crítica social acentuada. Vale a pena ler este texto e intercalar gargalhadas com olhos arregalados, para além de todo o valor literário num dos escritores portugueses que ficou sempre — e incompreensivelmente — fora dos cânones.

O Homem Domesticado — Nuno Gomes Garcia

 


Li este livro em 2018, no ano em que a grande série televisiva que agarrou o grande público foi The Handmaid's Tale, A História de uma Serva, baseada no livro com o mesmo nome de Margaret Atwood e publicado pela primeira vez em 1985. A discussão sobre se o mundo distópico de Gilead é mera ficção ou se aproxima velozmente da realidade desabrochou. Nesta nova sociedade os homens detêm todo o poder, estando as mulheres proibidas de ler, de usar o seu nome próprio ou de sair quando bem entendem. Aquelas que são férteis são usadas num ritual de procriação para gerarem filhos às mulheres inférteis dos grandes políticos, também estas com um papel bastante diminuto no que respeita a liberdade. Uma série que, pese embora a angústia, está muito bem realizada e vale realmente a pena acompanhar.

Se, por um lado, vi a série de uma assentada, até me doerem os olhos, não quis, por outro, ler imediatamente depois o romance da Margaret Atwood. Encontrei, no entanto, a mesma cegueira totalitária no seu reverso sexual no terceiro romance de Nuno Gomes Garcia. O Homem Domesticado trata de uma sociedade europeia, depois do que denominam de Grande Flagelo, em que são as mulheres que lideram toda a qualquer ação, não permitindo aos machos mais do que tratar da casa, sempre vestidos com o seu cache-tout, e ter a sua parte na procriação em úteros artificiais. As mulheres têm total poder de domesticar os machos que escolheram no Instituto de Maridos, assim como de os castigar. 


Toda a trama gira em torno de Francine Bonne e dos seus dois maridos, uma vez que o primeiro é infértil e ela conseguiu arranjar um segundo sem se desfazer do primeiro, que já estava domesticado a seu gosto. A chegada do segundo marido, diferente dos demais, todos eles criados em laboratório, transporta consigo uma série de questões e ações que culminam numa morte e na sua investigação. Um assassínio que se transformou numa questão política e que será conduzido de formas menos próprias, numa justiça que pretende, acima de tudo, dar força às mulheres e mostrar a rebeldia dos machos e a necessidade de os dominar.

A escrita em si não foi sempre cativante, mas julgo que a temática e a reflexão vindoura se sobrepuseram a quaisquer momentos menos fluidos. De certa forma, a par de The Handmaid's Tale, O Homem Domesticado relembra-nos a necessidade do equilíbrio social, sem desconsiderações para qualquer dos sexos. Uma reflexão que cada vez mais parece valer a pena.

Diário de um Mau Ano, J. M. Coetzee



Em Dezembro decido sempre, a cada ano, uma leitura que faça jus ao ano que tive. Como um selar de 365 dias numas só obra e, fechado o livro, começar uma narrativa nova. Em 2017 tive um ano de provações que merecia uma leitura espessa, consciente e sem felicidades plastificadas. “Diário de Um Mau Ano”, do Nobel J. M. Coetzee foi a escolha acertada. Atenção que não queria com isto encher-me de piedade ou raiva ou angústia, pelo contrário. Queria ler outro Mau Ano, melhor escrito que o meu, para me encher de garra. E logo a primeira página foi uma surpresa. Não sabia absolutamente nada da obra, confiava apenas no conceituado autor e no título ríspido e direto. 

A leitura começou tão rápida que nem reparei numa linha separadora, quase no final da página. Aí chegada, percebi que o texto que estava a ler teria continuação na página seguinte e se iniciava aí uma nova narrativa. Tentei organizar-me o melhor possível na estrutura desusada. Continuei. Percebi que a primeira parte da página era dedicada a ensaios políticos, sociológicos, filosóficos, todos eles de cariz contemporâneo e ainda tão em dia, apesar da primeira edição ser de 2008 e agora os tempos mudarem a uma velocidade superior. A segunda parte da página estava escrita na primeira pessoa, um narrador autodiegético, como se diz agora. Era a voz do autor dos ensaios. Havia ali portanto um escritor, e os seus escritos. Agradou-me. Continuei. Páginas adiante, a estrutura adensa-se: mais um corte, mais um narrador. Temos, portanto, um romance escrito a três vozes: a voz do ensaio, a voz e as angústias do ensaísta, escritor reconhecido mas já com certa idade, que contrata uma mulher interessante para ser sua dactilógrafa. E por fim a voz da dactilógrafa, também ela a narrar na primeira pessoa que revela a sua relação com o escritor. A estranheza primeiro, as críticas às temáticas e à forma de escrita, a aproximação vivencial, a comunicação com o seu companheiro. Tudo se passa num cenário pouco vasto, uma vez que são vizinhos do mesmo prédio, apartados por alguns andares. Três personagens: JC, o escritor; Anya, a dactilógrafa e Allen, o seu companheiro. A realidade, os ciúmes e as oscilações valorativas vão-se adensando, em divergências que ganham contornos muitos deles espelhados nos ensaios descritos acima. É um livro que fala da realidade do dia a dia, das pessoas como elas são, nem boas nem más, um misto que se balanceia e que às vezes se domina, outras se encobre. 


«É como a maquilhagem. A maquilhagem pode ser uma mentira, mas nem toda a gente a usa. Se toda a gente usar maquilhagem, a maquilhagem passa a ser a maneira como as coisas são, e o que é a verdade senão a maneira como as coisas são?»

É um livro sobre a realidade, o mundo na sua forma mais comum. E o mundo na sua forma mais comum tem vícios, tem mentiras, tem trapaças, mas tem valores também.


Boas leituras, e votos de um Bom Ano!

Cem Anos de Solidão, Gabril García Márquez




Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, é uma obra exigente: pede-nos tempo e inteireza, uma entrega plena no desenrolar de cada página. No entanto, se exige, também dá em troca: a primeira frase prende-nos de imediato numa trama que se adensa, cada vez mais, por entre analepses e prolepses sem fim, a lembrar que nenhuma história tem uma linha temporal segura, linear e estruturada. É preciso ir lá atrás, trazer tudo e limpar o pó; e depois saltar para apanhar o futuro lá à frente, deixando-lhe um pouco do cheiro antigo. Só assim nos inscrevemos com alguma fidelidade. A história dos Buendía não podia ser a história de uma família qualquer. Está embebida em misticismo, magia, memória e descoberta. A transbordar de amor e solidão.

«Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo.» Na mesma proporção em que o mundo progride, também Macondo e as suas gentes. Uma progressão que desemboca, precisamente, numa retrogressão. Pelo meio ficam os desenvolvimentos naturalmente humanos: as relações, as traições, os interesses tão diferentes consoante se nasce Aureliano ou José Arcadio, as épocas de luxo e de glória, tão estreitas às de miséria. Os nascimentos, os casamentos, as mortes. As camas de rede legítimas e as ilegítimas. A história de uma família durante seis gerações, cheia de sangue a pulsar, da forma mais autêntica: com retidões e muitas falhas de temperamento.

No meio de todo este realismo que esmurra, encontramos, no entanto, lufadas de ar fresco impregnadas de magia. Seja uma chuva de flores amarelas; ou um fio de sangue que percorreu a aldeia até entrar na cozinha de Úrsula, a matriarca, para a avisar da morte do filho; ou ainda uma chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias... estes são apenas alguns dos exemplos do realismo mágico acentuado nesta obra. 

De toda a singular família Buendía, não preciso pensar para dizer que foi Úrsula a personagem que mais me prendeu. Passada a leitura continuo a ver Úrsula pelos corredores, de roda dos seus caramelos, sustento doce de toda a família, ou a tratar dos orégãos, ou a matar as formigas intrusas. Um alicerce de todas as personagens, assim como de toda a obra. É ela que, na sua sombra, junta as pontas soltas, desamarra os nós e constrói a teia unificada de toda a história. Para lá da família, desenvolvi um carinho especial por Melquíades e o seu caráter quase divino: omnipresente e omnisciente, ao mesmo tempo que quase criança nas suas invenções e fantasias. Ainda assim, a personagem que, fora da família, conserva — à imagem de Úrsula — um papel unificador, é Pilar Ternera e os seus olhos que leem o futuro dos Buendía melhor que as cartas que deita. Comum a todas as personagens, sem exceção, é, sem dúvida, a solidão em que cada uma se encontra, ou desaba, ou procura. Aureliano Buendía afirma, a certa altura, que: «o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão».

A questão que fica, no final, é saber onde é que esta história estava já escrita, iniciada. Porque cem anos não chegam para a conceber de forma tão integral e absoluta como a encontrei. Haverá por aí um quarto de Melquíades, cheio de pó e história, e o García Márquez não terá sido mais do que um sortudo.

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

 


Comecei a ler A Sombra do Vento sem enormes expectativas. Toda a gente me dizia que era um livro que eu ia adorar e essas certezas sempre me encheram de dúvidas e desconfianças. Depois do arranque inicial, voraz, da descrição da descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos, perdi velocidade à medida que o suspense se acentuava. Desde miúda que não lia um livro de mistérios e investigações. A ansiedade não faz parte dos meus desejos literários. Por isso, a par da intriga, ia crescendo em mim um certo grau de irritabilidade: queria dar um passo à frente das investigações de Daniel Sempere e não conseguia: cada descoberta dele era um espanto meu. Assim, se na primeira semana o livro me acompanhava só uns minutos antes de adormecer, na segunda já fazia parte do meu acordar, da hora de almoço e de toda a noite desde o final do jantar. O que no início era uma exasperação, por me sentir pouco perspicaz, tornou-se uma quase obsessão. Foi uma leitura de interjeições constantes: de espanto, de medo, de confirmação ou de consternação. 


No que respeita às personagens, senti-as todas muito bem fundadas: construí-as, vi-as e acompanhei-as: nos seus trajes, nos hábitos e na forma de estar. Aquela que mais esperei em cada página e com a qual mais sofri e mais sorri, foi sem sombra de dúvida Fermín Romero de Torres. Lembrou-me o João da Ega, personagem imortal d’Os Maias, com o seu caráter progressista, sempre crítico, mas também sonhador e sentimental. O inteligente, perspicaz e carinhoso Fermín a quem Daniel deu a oportunidade de ter novamente uma vida e que ele agarrou literalmente com um apetite voraz e guloso. Gostava de ter lido um pai do Daniel mais ativo, mais participativo de toda a trama. Senti-o quase como uma presença divina, sentado no seu cadeirão com o Cândido do Voltaire sobre as pernas, a compreender silenciosa e pacientemente. Gostava que, mais do que Gustavo Barceló, fosse o pai do Daniel, o livreiro Sempere, a dar um dos últimos empurrões da investigação. Gostava, mas não foi assim, e o pai do Daniel conservou a sua calma e confiança ao longo de toda a obra.


Relembrar que cada livro que lemos encerra em si uma história para lá da que narra revela-se o mote desta obra. Para nos fazer imaginar o contexto, a vida por trás da obra, as razões que a justificam, as ânsias e paixões do autor. Um mistério cheio de meandros e pormenores a que muito dificilmente poderemos chegar. E este é o encanto das lombadas e do papel que folheamos: o terem tanto sangue a pulsar, que não conseguimos nem fazer uma pequena ideia. Carlos Ruiz Zafón lembra-nos isso a cada página. E faz-nos avançar a leitura com uma ânsia de indícios que nos ajudem a penetrar em dois livros a um só tempo.  

Para lá de tudo isto — como se não bastasse — este livro conduz-nos por uma Barcelona que apetece conhecer com o livro nas mãos. Lugares que nunca visitámos ou vagamente nos lembramos assumem agora formas renovadas, traços marcados de livreiros, relojoeiros, inspetores, mendigos e leitores curiosos. Com um olhar à espreita, sempre. A verdade é que, na noite em que acabei de ler A Sombra do Vento, sonhei que passeava pelas Ramblas, a saborear Sugus.

A Gorda — Isabela Figueiredo



Desde 2016, quando saiu A Gorda, que eu o tinha marcado como livro a ler. Lembro-me de ouvir na rádio, ler nos jornais e nas redes sociais imensas críticas e o livro tinha tudo aquilo que um livro deveria ter. O isco já estava lançado, mas os livros foram-se sucedendo e A Gorda foi ficando por ler. Este início de verão, por sugestão de uma bibliotecária (vão por mim, as bibliotecárias fazem um aconselhamento literário fenomenal, está-lhes no sangue) lá me veio A Gorda parar às mãos. E logo numa altura propícia a crises e chiliques frente ao espelho. Das duas uma: ou começava uma dieta rigorosa ou espanejava pelo mundo os meus quilos a mais, sem qualquer complexo. Mas ler a Isabela Figueiredo é muito mais do que este simples maniqueísmo. 


Sempre gostei de livros que abusam das analepses. Fazem-nos viajar no tempo e na história da personagem como uma quase divindade, presente para lá do tempo e do espaço. Mas este também não é um livro com um presente específico e que vá lá atrás regularmente. Este é um livro sem tempo e do tempo todo. Tão essencial é a adolescência como o dia-a-dia dos seus trabalhos, como num instante voltamos ao tempo da faculdade. Todos os tempos numa teia só, bem desenhada e a apanhar-nos nela sem piedade. Relembramos esses tempos, são nossos também. Nessa teia de tempos dispersos não há a ânsia de encontrar respostas ou justificações para o presente: há vida, apenas, se isso fosse pouco.

Se o primeiro capítulo é o da porta de entrada e o último é o do hall, com A Gorda não ficamos à entrada. Percorremos uma casa inteira. Uma casa que é muitas vidas, dois países e muitas experiências, tudo em simultâneo e com ajuda de uma banda sonora sempre presente, sempre coincidente. É por entre as diferentes divisões que divisamos Lourenço Marques, Matola, Lourinhã, Minho, Alentejo, Almada. A vida da Maria Luísa, dos seus pais, da tia Maria da Luz, da prima Fá, do senhor diretor, da Tony, do Leonel e do Tiago, dos cães e, em cada centímetro de casa, em cada partícula de pó, em cada cheiro da marmelada dos domingos de outono, do David. 


«A vida adulta raspa a pele.», diz-nos a determinada altura. Mas se a vida adulta raspa a pele as memórias da adolescência não a hidratam, pelo contrário. Preparam essa raspagem com uma esfoliação constante, ainda que tantas vezes disfarçada. E Maria Luísa aprende a arte da fortaleza, e de ser ou tudo ou nada, como sublinha tantas vezes. Entrei com a Luísa no carro, estive com ela na casa dos familiares, no colégio, na faculdade, no trabalho e nas mesas de café. Acampei com ela, estive com ela em casa. Senti-me Luísa inúmeras vezes. E é isso que procuro num livro. E foi por isso que A Gorda foi muito mais do que previa, embora já previsse bastante.