Thursday, March 31, 2016

Imre Kertész (9/11/99 - 31/03/16)


Morrer é facil
a vida é um enorme campo de concentração
que Deus construiu na terra para os homens
e que o Homem aperfeiçoou
em campo de extermínio do homem
Ser suicida é tão-só
enganar os guardas
fugir desertar rir
na barba dos que ficaram
Neste grande lager da vida
em que nem para fora nem para dentro e nem para a frente nem
para trás
de vidas suspensas
neste mundo infame envelhecendo
sem que o tempo avance...
aqui aprendi que a revolta é
FICAR VIVO
A grande insubmissão é
vivermos até ao fim
e também a grande humildade que
juntos devemos a nós mesmo
que dar continuidade à vida
de novo começar todos os dias
de novo viver todos os dias
de novo morrer todos os dias

Imre Kertész

Monday, March 21, 2016

Cada árvore é um ser para nós



Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses.

António Ramos Rosa

As Palavras Escolhidas


Não sei, não sei, não, não sei,
não sei, nem ninguém o sabe,
porque este dever me cabe,
dever ou devir, não sei.
Outros, que um dia virão,
saberão e entenderão
o que nenhum de nós sabe.
Outros dirão o motivo
por que é que me exprimo assim,
por que luto e por que vivo
tão alheado de mim.
Por que se impõe, por que oprime
este martírio comum,
esta expiação sem crime
na cela de cada um.
Por que, sem escolha, me entrego
nas palavras escolhidas,
sementes evoluídas
cumprindo um destino cego.
Tudo então será fácil. Tudo.
E todos o entenderão.
Todas as gotas deste caudal mudo
no mesmo longo leito correrão.
Então se entenderá que a voz do poeta,
que o metal da trompete e as tintas do antraceno,
que o silvo do motor rasgando o espaço pleno,
que o choque do neutrão da experiência secreta,
que o modo de sentir, de rir, de querer, de amar,
tudo é sinal e símbolo de um coração diferente.
E então todos dirão:
Claro! Evidentemente!
António Gedeão

Mostrai que mostrais


Mostrai que mostrais. Entre as diversas atitudes
Que mostrais ao mostrardes como os homens se comportam
Não deveis esquecer a atitude de mostrar.
Que cada atitude se funde sobre a atitude de mostrar.
O exercício é o seguinte: antes de mostrardes
Como é que um homem trai, ou se torna ciumento,
Ou fecha o negócio, olhai para o espectador
Como se quisésseis dizer-lhe:
E agora atenção, este homem vai trair, e vai trair assim.
Eis como ele se transforma quando o ciúme o assalta, eis o que
fez
Depois de fechar o negócio. Deste modo,
A vossa demonstração acompanhará a atitude de mostrar,
De proferir o que já está preparado, de finalizar a tarefa,
De continuar eternamente. E assim mostrareis
Que todas as noites mostrais o que mostrais, que já o mostrastes muitas vezes,
E a vossa representação terá qualquer coisa do trabalho do tecelão,
Qualquer coisa de artesanato. O que faz parte da demonstração,
A vossa aplicação constante para facilitar
A observação, para permitir o melhor entendimento
De cada acontecimento, tornai-o bem visível. E assim
Atraiçoar, fechar um negócio,
Ter ciúmes, tudo isso passará a ser
Uma função quotidiana como qualquer uma destas: comer,
Dizer bom dia ou
Trabalhar. (Porque vós trabalhais, não é verdade?) E por trás
Dos vossos personagens, vós permanecereis visíveis, como aqueles
Que vós apresentais.
Bertold Brecht

Pedras que ficaram nos bolsos


Do que não precisamos agora é de brilhos fúteis,
truques verbais, exercícios de lirismo magoado.
As palavras são só palavras, nem coisas maiores
nem mais altas, apenas pedras que lançamos
ao poço para ouvir como se agitam as águas.
Lá fora o vento e os telhados agrestes, o céu
da cidade ostensivamente idêntico ao dos
dias felizes. Empilhamos, melancólicos,
livros que foram mais transparentes.
Conferimos as margens, a mancha gráfica,
os indícios de uma perfeição talvez inútil.
Mesmo olhada de frente, a ausência
continua a ser cruel, o silêncio uma
ignomínia. Descemos à rua, bebemos
café, fingimos seguir em frente. As
palavras são pedras que afinal ficaram
nos bolsos, guardadas para um inimigo
que se ri e só destapa o rosto medonho
quando está fora do nosso alcance.
José Mário Silva

Não se mete o passado na algibeira


Vivem no meio de bens herdados, de presentes, cada móvel delas é um presente. Relógios de sala, medalhas, retratos, conchas, pesa-papéis, biombos, xailes. Têm armários cheios de garrafas, de panos, de roupa velha, de jornais; guardaram tudo. O passado é um luxo de proprietário. Onde havia eu de conservar o meu? Não se mete o passado na algibeira; é preciso ter casa para o arrumar. Possuo apenas o meu corpo; um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações; elas passam através dele. Não devia queixar-me: tudo quanto quis foi ser livre. (…) Lá está outra vez a olhar para mim. Desta vez vai-me falar; contraio-me todo. Não é simpatia que há entre nós: somos parecidos, é o que é. O homem está sozinho como eu, mas mais enterrado que eu na solidão. Deve estar à espera da sua Náusea ou de qualquer coisa nesse género. Há agora, portanto, pessoas que me reconhecem, que pensam, depois de me ter encarado: "Aquele é dos nossos." E então? Que é que ele quer? Deve saber bem que não devemos prestar nenhum socorro um ao outro. As famílias estão nas suas casas, no meio das suas recordações. E nós aqui, dois destroços sem passado.
Jean-Paul Sartre

Se fosses um peixe


Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias - cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil - e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso - somos assim obscuros.

Herbero Helder

As Gaivotas também ali estão


A criança está ali, olha para o papagaio, é um desenho vermelho no céu. Está um pouco afastada dos outros, não deve estar a fazer de propósito, deve ser sempre assim. Como se involuntariamente aquele rapaz se atrasasse sempre em relação às outras crianças. Quando o papagaio caiu morto olhou para ele, depois sentou-se na areia a olhar; outra vez aquilo, um papagaio que tinha morrido.
As gaivotas também ali estão, voltadas para o largo, com a plumagem alisada pelo vento. Ficam assim pousadas na areia à espreita da desorientação da chuva. E de repente gritam, ensurdecedoras, metem medo. Depois fogem sem razão para o largo e voltam de repente. São malucas as gaivotas, dizem as crianças.
Marguerite Duras

Partiu-se a Gargalhada


Sabes, Wendy, quando o primeiro bebé riu pela primeira vez, a gargalhada partiu-se em mil bocados, que desataram todos a pular cada um para seu lado, e foi essa a origem das fadas.
J. M. Barrie

Iremos Juntos


Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Caderno do Porto Velho


escrevo o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas
sombra aprendida em aromáticos versos
desconheço ainda esta cidade
depois de tantos anos
mas aprecio
pela tarde o lento rir das áleas
avenidas de timbre meridional
casas onde ainda se pode descascar a fruta
atirar a casca para um alguidar partido
e onde na trégua do calor maior as crianças costeiras
tomam o alcatrão das ruas a areia das praias
rompem este silêncio de vagar portuário
de palavras como ruína que envolvem
o sentido do que escrevo
as tuas mãos ou o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas
Miguel Manso

Não Vês?


(…)
Aperta um coração
invisível — não vês?
Um coração
reflectido no vento.
Às de paus.
Tesouras em cruz.
Garcia Lorca

Um Quadrado de Sossego


Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta
Daniel Faria

A Idade da Razão


Era uma luz de fim de esperança, eternizava tudo aquilo em que tocava. A menina saltava à corda eternamente, a corda erguia-se eternamente acima da cabeça dela e eternamente fustigava o chão a seus pés. E Mathieu contemplá-la-ia eternamente. Para quê saltar à corda? Para quê? Para quê resolver ser livre? Sob aquela mesma luz, em Madrid e em Valença, havia homens, às janelas, que olhavam as ruas desertas, e diziam: "Para quê? Para quê continuar a lutar?
Jean-Paul Sartre

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

Sono


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...
Álvaro de Campos

Parêntesis


O mar está cada vez mais longe
(Como se chama a distância?)
Deixa-nos ao vento, papéis soprados
por todos os escritos
“quarto aluga-se”, pensos de feridas
eternas
novíssimas, jogos de linguagem (cró
nicos, recorrentes)
Deixa-nos: e
se vento nenhum
soprar?
António Pedro Pita

E eu no teu peito


Guarda-me
adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais sobre
esta terra de ninguém onde morro
por qualquer coisa que me fale de ti
há noites assim em que o silêncio
se transforma ao de leve numa lâmina
que minuciosamente rasga o linho
onde ficou esquecido o corpo que habitámos
em provisórias madrugadas felizes
depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta
e eu adormecida para sempre
no teu peito
e eu acorrentada para sempre
no teu peito
e de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas
porque as palavras certas estavam todas
em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor
muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão
e eu adormecida para sempre
no teu peito
e eu acorrentada para sempre
no teu peito
Alice Vieira

Em segunda mão


Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos,
Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.
A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.
Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.
Agora os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.
José Luís Peixoto

O Beijo


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre O'Neill

Na minha insónia


Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas consaguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.

Herberto Helder

Interior. Dia.


Alvy Singer, sobre um fundo neutro, fala para a câmara.
Alvy: Vou contar-lhes uma velha anedota. Hum, duas velhotas estão numa pousada da Catskill Mountain e uma delas diz: "Hei, a comida aqui é mesmo horrível." Responde a outra: "Sim, eu sei, e ainda por cima as doses são tão pequenas..." Bem, é assim que eu, de uma forma essencial, sinto a vida. Cheia de solidão, de tristeza, de sofrimento e de infelicidade, e tudo passa demasiado depressa. Há uma outra anedota muito importante para mim que é aquela, hum, que geralmente é atribuída a Grouxo Marx, mas que eu creio ter aparecido originalemnte na "Piada e sua relação com o inconsciente" de Freud. E ela passa-se assim. Vou parafraseá-la. Hum: "Nunca queria pertencer a um clube que tivesse como sócio alguém como eu." Esta é a piada chave da minha vida adulta no que se refere às minhas relações com as mulheres.
(Woody Allen, Annie Hall)

Que música?


Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade

As Palavras


As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, dizem que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território. A palavras porta abre e fecha, e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou nos afoga. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há a palavra mar que afunda todos os navios.
Afonso Cruz

Aprendizagem da Poesia


Durou muitos anos, aquele verão.
Crescíamos sem pressa com o trigo
e as abelhas. Com o sol
corríamos para a água, à noite
num verso de Shakespeare ou
na nossa boca uma estrela dançava.
Aprendíamos a amar, aprendíamos
a morrer. A todos os sentidos
pedíamos para escutar o rumor,
não do mundo, que ninguém abarca,
apenas da brancura de uma folha
e outra folha ainda de papel.
Eugénio de Andrade

Quase-sem-mim


Aqui está o fogo, bebe. aqui estão as estrelas cujos nomes alguém inscreveu a sangue. aqui está a terra onde me sepultarás.
Longínquos dias, travessia de séculos, noites perdidas na inutilidade irrequieta dos quartos-minguantes. aqui estou, perdido para sempre, sozinho, quase sem mim, a evitar o pior.
Pego num cigarro, fumo-o sofregamente. desejo-te ainda. se o telefone tocasse, se batessem à porta, se me apetecesse sair daqui.
Já não estou contigo nem com os outros. eles estão vivos, movimentando-se. eu não sei se estou vivo, imobilizo-me. Os cães ladram junto à janela, ouço-os cada vez mais longe.
Al Berto

E Inventaram o Amor com Carácter de Urgência


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrina da pequena loja onde não entra ninguém no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor.
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana.
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e
souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado.
Daniel Filipe

Grito Parado Sufocado


Vem a noite e o silêncio. Noite infinda, noite do nosso inverno, sem calor e esperança, paz podre, ó noite portuguesa!… Uma a uma abrem-se no lusco-fusco (como se diz) pequeninas chamas e paradas fixas ou trementes brilhantes nos fitam ao longe no buraco da distância. Com o sorriso defeituoso de quem chorou muito, uma ternura larga de quem chegou agora e não espera já mais nada, a poeira toda do caminho para andar e a alma mole: vista daqui deste silêncio até a cidade tem grandeza. Naquelas ruas entre as casas e as luzes está a , é ali que respira e anda e ama (quem sabe?) nesta aventura sórdida que vivemos empurrados por estúpidos, condenados por juízes loucos, castigados por todas as polícias, sufocados por velhos, gente imunda todos, bicharada rasteira moribunda peganhenta manhosa crápula; aquela uma luz pequenina é talvez o seu quarto talvez um sexo fluorescente (como quem sabe atrair os olhares) a sua voz um grito parado sufocado como quem já não sabe por que razão gritar.
Luiz Pacheco

Sem Partir


Também se pode
regressar sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
Albano Martins

Pelo Sonho é que Vamos


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama

Tenho um Decote Pousado no Vestido


Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.

Maria do Rosário Pedreira

Um Dia e Mais Outro


Vento do Suão, tu. O silêncio
passou-nos à frente, uma segunda
vida, nítida.
Ganhei, perdi. Acreditámos
em maravilhas sombrias, o galho,
escrito à pressa no céu, transportou-nos,
cresceu
em traços brancos para a órbita lunar, uma
manhã
saltou para cima de ontem, dispersos,
buscámos o candeeiro, espalhei
tudo nas mãos de ninguém.
Paul Celan