Showing posts with label Afonso Cruz. Show all posts
Showing posts with label Afonso Cruz. Show all posts

Friday, December 30, 2022

Vamos Comprar Um Poeta — Afonso Cruz

 


Quando falamos de Afonso Cruz dificilmente conseguimos dizer alguma coisa que saia do habitual, ou que contrarie a opinião comum. Nem sequer vou tentar fazê-lo, portanto. Só o descobri em 2015 numa altura em que a falta de concentração e o stress me tinham retirado o hábito da leitura. A cada segunda página de um novo livro cansava-me, punha-o de lado. Todos os livros me pareciam enfadonhos (e eu que sempre fui o que carinhosamente se chama um ratinho de biblioteca). Costumo dizer que o Afonso Cruz me salvou em termos literários. Por tudo isto, tento não abusar na sua leitura e ir deixando livros por ler, ter sempre uma dose de boa literatura à mão para qualquer eventualidade, como um ben-u-ron.


Vamos Comprar um Poeta é um livro pequenino, mas que assume o tamanho do horizonte de cada leitor. É um livro de palavras pesadas — cotação, patrocínios, produtividade, investimento, finanças — e um livro de palavras leves — borboleta, raiz, janela, mar, poema. Cabe ao leitor colocá-las na balança que equilibra a utilidade e a inutilidade. Ou tomá-las na mão e sentir-lhes realmente o peso. Um livro tão pequeno julgo que é mesmo de peso que trata. O peso da realidade economicista, o peso da contribuição para a dinâmica social, o peso do lucro. E, por outro lado, o peso do ócio, o peso da inutilidade e o peso da metáfora, que nada tem a ver com a mentira. Afinal para que serve a poesia se podemos reduzir tudo a números? Se temos o pragmático do nosso dia-a-dia para quê perturbá-lo com o inútil? Um poeta comprado por uma família que tem a preocupação constante de fazer a economia circular vai obrigá-los a refletir e a balancear valores e necessidades. 

E se logo no início do livro nos choca: «Gostava de ter um poeta. Poemos comprar um.», à medida que a leitura vai fluindo (e flui mesmo, este é um livro que não se pousa a meio, abre-se e leva-se até ao fim, de uma assentada), o choque inicial vai-se transformando em agonia: aquela luta interna que travamos com a consciência e com as vísceras. Tanto que, quando a meio do livro nos é descrito «Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares.», isto já não nos choca como os momentos iniciais. Já só nos empurra mais um bocadinho para bolsas e cotações. 


Neste livro, se existe um Belzebu este assume o nome de Bancarrota. E uma divindade não poderia ter outro nome que não Mamon. Mas no meio disto tudo, uma janela sobre o mar pode ser uma frase escrita a caneta de feltro. Numa parede de um vão de escada. 

Monday, March 21, 2016

As Palavras


As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, dizem que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território. A palavras porta abre e fecha, e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou nos afoga. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há a palavra mar que afunda todos os navios.
Afonso Cruz