Tuesday, April 25, 2023

49 anos de uma liberdade quase perfeita

SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Sidónio Muralha

E SABEM? LER É A MAIOR LIBERDADE!

https://drive.google.com/uc?export=view&id=10P77Q_Cwx9UEj9yvwN21Ny1ipQB5J24N

A Catedral do Mar, Ildefonso Falcones

https://drive.google.com/uc?export=view&id=1iKQTSiGbC7WEx_JMMFEZRfonFWewSHx1
A dada altura pensei que o romance já podia ter terminado, eram reversos a mais, mas mantive-me sempre em leitura galopante e empatia desmedida com Arnau — que vida, chiça! 😉 — e acabei com uma vontade tremenda de redescobrir Barcelona já amanhã. Gosto muito de livros que me fazem querer viajar (o último em que senti isso de uma forma bem vincada foi há já uns cinco anos com a tetralogia Amiga Genial da Ferrante, com as suas descrições de Nápoles — e a vontade permanece, porque ainda lá não fui!).
Amanhã vou começar o Violeta, da Isabel Allende, escritora que nunca li (se sugerirem algum melhor digam hoje! Eheh!).
Voltando à Catedral do Mar, vale muito a pena. A edição tem muitas gralhas mas a tradução é cuidada, parece-me. A história desenrola-se nos anos de 1300, sobretudo em Barcelona e sentimos na pele a problemática dos feudos, da pobreza, da peste, da estratificação social e da inquisição. Adoramos algumas personagens, odiamos outras, acompanhamos a narrativa com alguma ansiedade. 
Iniciei a leitura num livro requisitado na biblioteca, terminei a leitura num livro já meu, que encomendei logo no primeiro ou segundo dia de leitura.

Saturday, January 28, 2023

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Jorge Amado

 


A primavera desperta sorrisos. E no primeiro dia de primavera no parque o gato Malhado acordou e sorriu um sorriso tão grande que desencadeou toda a trama deste delicioso livro. Quem diz que é infantil desengane-se: traz-nos leveza com uma linguagem lírica, traz-nos amor com rodopios, lembra-nos a diferença e o preconceito com criancice.

A história de amor entre um gato sisudo e uma andorinha rebelde e sorridente foi contada à Manhã pelo Vento, que a fez atrasar-se a apagar as estrelas, e foi depois contada pela Manhã ao tempo, em troca de uma rosa azul. Da história ficamos com os jogos de amor entre o malhado e a Sinhá, com os rumores à sua volta, as críticas sempre sussurradas, de quem não aceita um amor assim porque nunca tal se viu. Guardamos a inocência de um soneto de amor e a dura crítica do Doutor Sapo Cururu, que muitos sorrisos me deu.

Dividida pelas estações do ano, com importantes parêntesis, esta história de amor não é, de todo, uma história para crianças, também porque não viveram felizes para sempre. Viveram com as memórias de momentos felizes para sempre.

Jorge Amado escreveu esta história em 1948, no primeiro aniversário do seu filho João Jorge. É este quem a encontra, em 1976, a dá a ler a Carybé, que a ilustra com estes traços leves e coloridos que nos prendem. Depois disto, Jorge Amado não tem outra hipótese que a levar para publicação. Uma obra-prima que nasce do amor e que não fala senão de amor. E a Manhã ganhou do Tempo a rosa azul.

«A manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador, dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá. Cortinas nas janelas para evitar a luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.

Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga.» p. 13


A Breve Vida das Flores, Valérie Perrin

 

«Os meus vizinhos são determinados. Não têm preocupações, não se apaixonam, não roem as unhas, não acreditam no acaso, não fazem promessas nem barulho, não têm segurança social, não choram, não procuram as chaves nem os óculos, o telecomando, os filhos ou a felicidade.

Não leem, não pagam impostos, não fazem dieta, não têm preferências, não mudam de opinião, não fazem a cama, não fumam, não fazem listas, não pensam duas vezes antes de falar. Não têm substitutos.

Não são graxistas, ambiciosos, rancorosos, sedutores, mesquinhos, generosos, invejosos, desleixados, limpos, sublimes, curiosos, viciados, avarentos, sorridentes, maliciosos, violentos, apaixonados, mal-humorados, hipócritas, dóceis, duros, mudos, maus, men-tirosos, ladrões, jogadores, corajosos, falsos, crentes, pervertidos, otimistas.

Estão mortos.

A única diferença entre eles é a madeira do caixão: carvalho, pinho ou mogno.» p. 9

 


É assim que começa A Breve Vida das Flores. E se este primeiro capítulo não me tivesse agarrado logo, teria o início do segundo, numa perfeição sem pausa:

 

«Chamo-me Violette Toussaint. Era guarda de passagem de nível, agora sou guarda de cemitério.

Saboreio a vida, bebo-a em pequenos goles como chá de jasmim com mel. E quando chega o final de tarde e os portões do meu cemitério se fecham e a chave se pendura à porta da minha casa de banho, fico no paraíso.

Não o paraíso dos meus vizinhos da frente. Não.

O paraíso dos vivos: um trago de porto -- colheita de 1983 -, que me traz José-Luis Fernandez todos os dias 1 de setembro.

Um resto de férias vertido num cálice de cristal, uma espécie de verão extemporâneo que desarrolho por volta das sete da tarde, faça chuva, neve ou vento.

Dois dedais de líquido rubi. O sangue das vinhas do Porto.» p. 10

 

Nunca um cemitério foi um lugar tão encantador como com este livro. Nunca uma profissão que nem me lembrava de existir e, se pensasse nela, a pensaria com sombria amargura, se mostrou tão delicada. Delicadeza é a palavra que penso melhor definir este livro. Delicadeza no amor, no viver o abandono, delicadeza na dor e na saudade.

O livro era bom o suficiente sem precisar de um mistério, de uma morte por apurar, de um amor extraconjugal para perceber. Mas assim tornou-se incrível. Agarrou-me e levou-me para o universo de Violette, que é o que se espera que os livros façam, fazer-nos viajar. A dor exposta era tanta que muitas vezes abrandava a leitura, mas uma dor bonita, se se puder assim chamar a alguma dor tão voraz e absoluta como aquela.

Nutri grande carinho pela Célia e pelo Sasha, os grandes pilares que Violette conheceu. Senti ternura pelo Nono, pelo Elvis e pelo Gaston, os irmãos Luchini, o padre Cédric. Julien Seul tomou um bocadinho do meu coração, mas adorei o diário da sua mãe Irène Fayolle e da sua paixão por rosas e por Gabriel Prudent. Adorei os nomes, as alcunhas, os sobrenomes. Toussaint, Seul, Prudent. Os pormenores que dizem mais. A violeta, cor de luto delicado.

A breve vida das flores e as flores a ajudarem a dar de novo vida. Às memórias e ao quotidiano. Foi um livro fenomenal.

Sunday, January 8, 2023

Americanah — Chimamanda Ngozi Adichie

Sempre fui uma leitora ávida, mas estive três longos anos sem conseguir dedicar-me à leitura. Um período menos firme, aliado depois a faltas de concentração que a chegada de uma filha pouco dada a dormir trouxe e também à exigência de um novo trabalho a que quis dar de mais, tudo isso desmoronou os meus hábitos de leitura e refugiei-me na poesia, fiel companheira de escassas palavras a serem tão grandes na minha cabeça. 

No verão passado consegui retomar os velhos hábitos, a medo, negando alguns livros pelo tamanho (eu, que sempre tive uma paixão pelos russos muito pelo tamanho das suas obras, que fundavam raízes com tempo e solidez) mas escolhendo outros belíssimos (quero falar deles um destes dias). E no Verão neguei a americanah, que a amiga bibliotecária me aconselhou. Que não, que era muito grande, que estava desabituada. 




E em dezembro a amiga bibliotecária volta a pôr-mo nas mãos a dizer “tens de ler isto, miúda!”. E trouxe-o comigo pouco crédula — não na obra, da qual já tinha ouvido falar várias vezes, mas na minha capacidade de resistir a mais de 700 páginas. Meteram-se as festividades e pouco lhe liguei. Mas o ano começou e a história começou a ser um pouco minha. E há dois ou três dias atrás a história deixou de ser um pouco minha: eu passei a ser a Ifemelu. Passei a sofrer com a pouca sorte, a irritar-me tantas vezes pelo desprendimento, a ansiar Obinze e a querer saber do seu destino. Simpatizei com a tia Uju, com Dike, com a mãe de Obinze, irritei-me com Ranyinudo e todas as mulheres nigerianas de uma forma geral. Tive uma certa pena de Blaine, pouca simpatia por Curt. Deixei tarefas domésticas para trás porque cada bocadinho era para o livro, que deixou de ser livro e foi quase uma conversa telefónica com uma amiga, tal a cumplicidade que ganhei. 

E estas emoções todas devo-as não ao meu papel de leitora, mas ao trabalho de Chimamanda Ngozi Adichie. Um livro sem pressa, pensado, maturado, cheio de pormenores que se adensam e ganham forma na nossa realidade, ficam mesmo ali ao lado embora, saibamos, reflitam uma realidade cuja identidade não é a nossa, cidadãos brancos, europeus, que não nos questionamos sobre as complexidades que um tom de pele transporta. Não nos basta dizermos que não somos racistas, precisamos conhecer os contornos quotidianos da raça: as dificuldades, as desconfianças, mas também os sabores, os cheiros, a humidade do ar, as cores. Comi arroz jollof uma única vez, numa festa multicultural londrina, onde nem eu nem o meu marido conhecíamos os anfitriões. Nessa noite engravidámos, e ainda hoje sorrio e acuso o arroz. Nestes dias sentei-me à mesa com Ifemelu várias vezes a comer o seu jollof. E é isto que um bom livro nos faz, permite-nos entrar sem bater à porta. Literariamente, o meu 2023 começa mesmo muito bem.




«(…) e, no entanto, havia cimento na sua alma. Já lá estava há algum tempo, uma doença de fadiga matinal, de desolação, de falta de fronteiras pessoais. Provocava-lhe anseios amorfos, desejos sem forma, breves vislumbres imaginários de outras vidas que poderia estar a viver, que ao longo dos meses se foram fundindo em saudades lancinantes do seu país.» p.16


«Ela ouviu as suas palavras como uma melodia e sentiu a respiração entrecortada, ofegante. Não choraria, era ridículo chorar ao fim de tanto tempo, mas tinha os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas, um pedregulho no peito e um ardor na garganta. As lágrimas faziam-lhe comichão. Não emitiu qualquer som. Ele pegou na mão dela, ficaram de mãos dadas em cima da mesa, e entre eles cresceu um silêncio antigo que ambos conheciam. Ela estava dentro deste silêncio e estava em segurança.» p. 657


Editora D. Quixote, 2013, tradução de Ana Saldanha

Friday, December 30, 2022

Um Postal de Detroit — João Ricardo Pedro



Gosto muito de autores portugueses. Durante muitos anos, dediquei-me apenas aos grandes clássicos da literatura mundiais e desprezei os nossos lusitanos, dos quais só admirava a poesia. Uma vida é demasiado pequena para ler todos os livros que valem a pena. Por isso pensava que um país tão pequenino como o nosso não podia ter assim tantos bons escritores. Com o tempo, felizmente, deixei de procurar tabelas e comecei a descobrir novos nomes. Tive algumas desilusões, é certo; mas tive sobretudo boas surpresas. E habituei-me aos portugueses. 

João Ricardo Pedro venceu em 2011 o Prémio Leya com O Teu Rosto Será o Último, mas escolhi Um Postal de Detroit, um livro sobre a ausência e sobre o movimento constante em procura de paz.


O mote que serve esta narrativa é a conhecida colisão de dois comboios em Alcafache, a 11 de Setembro de 1985. Algumas das vítimas nunca chegaram a ser identificadas. Marta, a irmã do narrador, é uma delas. Ficam os seus cadernos de desenho, com traços do seu dia a dia, que é preciso agora perseguir. Porque razão estaria Marta naquele comboio com destino a Paris? Porque aparecem as suas sapatilhas numa foto de arquivo? Porque razão apareceu apenas o seu cartão de estudante por entre os destroços? A recriação da vida de Marta é feita pelo irmão, num contexto imprevisível onde aparecem personagens memoráveis como boxeurs, presidiários, prostitutas ou anjos. A par disso, índios, cavaleiros e xerifes. E a mãe, personagem constante mas distante, a contrastar com Silvana, a empregada zeladora. Entramos também, de mansinho, um quarto de hospital. A maior presença neste romance é, contudo, a ausência de si mesmo, narrador, nos cadernos de desenho da irmã. 


É uma narrativa que não procura um encadeamento, vai-se revelando, entre fantasia, memórias e realidade. Foi o que mais aprovei: não é assim que se constitui uma vida? 

Vamos Comprar Um Poeta — Afonso Cruz

 


Quando falamos de Afonso Cruz dificilmente conseguimos dizer alguma coisa que saia do habitual, ou que contrarie a opinião comum. Nem sequer vou tentar fazê-lo, portanto. Só o descobri em 2015 numa altura em que a falta de concentração e o stress me tinham retirado o hábito da leitura. A cada segunda página de um novo livro cansava-me, punha-o de lado. Todos os livros me pareciam enfadonhos (e eu que sempre fui o que carinhosamente se chama um ratinho de biblioteca). Costumo dizer que o Afonso Cruz me salvou em termos literários. Por tudo isto, tento não abusar na sua leitura e ir deixando livros por ler, ter sempre uma dose de boa literatura à mão para qualquer eventualidade, como um ben-u-ron.


Vamos Comprar um Poeta é um livro pequenino, mas que assume o tamanho do horizonte de cada leitor. É um livro de palavras pesadas — cotação, patrocínios, produtividade, investimento, finanças — e um livro de palavras leves — borboleta, raiz, janela, mar, poema. Cabe ao leitor colocá-las na balança que equilibra a utilidade e a inutilidade. Ou tomá-las na mão e sentir-lhes realmente o peso. Um livro tão pequeno julgo que é mesmo de peso que trata. O peso da realidade economicista, o peso da contribuição para a dinâmica social, o peso do lucro. E, por outro lado, o peso do ócio, o peso da inutilidade e o peso da metáfora, que nada tem a ver com a mentira. Afinal para que serve a poesia se podemos reduzir tudo a números? Se temos o pragmático do nosso dia-a-dia para quê perturbá-lo com o inútil? Um poeta comprado por uma família que tem a preocupação constante de fazer a economia circular vai obrigá-los a refletir e a balancear valores e necessidades. 

E se logo no início do livro nos choca: «Gostava de ter um poeta. Poemos comprar um.», à medida que a leitura vai fluindo (e flui mesmo, este é um livro que não se pousa a meio, abre-se e leva-se até ao fim, de uma assentada), o choque inicial vai-se transformando em agonia: aquela luta interna que travamos com a consciência e com as vísceras. Tanto que, quando a meio do livro nos é descrito «Estava uma manhã muito bonita, o ar, como se costuma dizer, cheirava a dólares.», isto já não nos choca como os momentos iniciais. Já só nos empurra mais um bocadinho para bolsas e cotações. 


Neste livro, se existe um Belzebu este assume o nome de Bancarrota. E uma divindade não poderia ter outro nome que não Mamon. Mas no meio disto tudo, uma janela sobre o mar pode ser uma frase escrita a caneta de feltro. Numa parede de um vão de escada. 

Stoner — John Williams

 


Este verão decidi deixar que outras pessoas influenciassem as minhas escolhas literárias. Julgo que é a melhor forma de descobrir títulos que, não fosse assim, permaneceriam escondidos. E entramos também, em grande escala, no universo da pessoa que nos aconselha, no seu dia-a-dia e nas suas paixões. Puseram-me este livro nas mãos e disseram: vais adorar. E eu comecei a leitura e cada vez ficava mais surpreendida: uma história demasiado calma, às vezes a roçar o aborrecido; muito bem escrita, em certos momentos quase demasiado bem escrita, se é que me faço entender.

Eram tão limpas todas as descrições que parecia que lhes faltava energia, pulsão. Os diálogos curtos, monocórdicos. Não existiam falhas nem aberturas que as possibilitassem. Às vezes fechava o livro e lia na capa as pequenas considerações que outros escritores tinham feito ao livro e lia coisas como «magnífico», «brilhante» ou «quase perfeito» e sentia-me confusa comigo mesma, com a incapacidade de descobrir os mesmos atributos no que lia. A leitura não chegou ao enfado, mas tive medo que isso acontecesse, ainda nas primeiras páginas. 


Mas não demorou muito para que, de um momento para o outro, e não consigo especificar quando, mas, ao mesmo tempo que sentia uma crescente empatia pela personagem, adentrasse no ritmo sereno de um narrador ameno e sem pressas. Só o ritmo da leitura galopava, o que estava inscrito nas páginas era de um abrandamento quase acidental. 

E julgo que acidental é a palavra que melhor descreve esta personagem e toda a sua história. Foi de forma acidental que William Stoner foi para a universidade; foi de forma acidental que descobriu a paixão pela literatura; foi de forma acidental que casou; que conheceu o grande amor; que teve sucessos e fracassos na sua carreira. Mas Stoner é tudo menos uma personagem acidental: se a sua vida tomou um rumo um tanto ou quanto ao acaso, sem que nada o sugerisse, a sua personalidade parece que nunca perdeu as suas origens, ao invés adensou-as. De trabalhador rural a professor de literatura inglesa numa universidade, parece que nunca se sentiu verdadeiramente encaixado em nenhum dos ambientes. De um herdou a quietação e o trabalho, tal como os seus pais, pouco faladores e extremamente dedicados, do outro a cultura, mas também a perturbação.

O estudo e a vocação para professor, que estava bem no fundo dos seus medos e descobriu a pulso, são o refúgio de quem acompanha a vida só porque sim, sem um murro na mesa ou uma voz mais elevada. Vejo Stoner numa procura constante de sentido, não só para si, como para o mundo. Pode sê-lo ou não, cada leitor o dirá.


O que mais me surpreende — e fascina, até — neste livro, é ter sido publicado pela primeira vez em 1965, mas só há poucos anos ter sido descoberto na sua perfeição e traduzido. Quantos leitores mais podia ter deslumbrado nestes anos todos? O que o terá levado a ficar "perdido"? O facto é que conseguiu atravessar décadas de uma maneira impressionante. Importa lê-lo, realmente.

Os Loucos da Rua Mazur — João Pinto Coelho

 


Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho, recebeu o prémio Leya em 2017. Só isto já seria suficiente para me assegurar a qualidade, mas li a pequena descrição da capa com alguma apreensão: «Na Polónia ocupada por soviéticos e alemães, o horror vem de quem menos se espera». E tive algum receio. Em primeiro lugar porque um romance histórico exige demasiado, para que consiga equilibrar justamente esses dois conceitos, o de romance e o de história, sem diminuir ou apagar qualquer um deles, engrandecendo o outro. Por outro lado, a segunda guerra mundial e todo o massacre a ela associada fazem parte dos meus interesses pessoais há bastante tempo e não queria encontrar detalhes fora do lugar. Não aconteceu.


O romance desenrola-se em três tempos distintos: antes, durante e depois da guerra (este último tempo ora gira em torno do pós guerra ora regressa aos tempos de hoje), e nele encontramo-nos com três personagens principais, onde este principal tanto se centra em Eryk, como em Yankel ou em Shionka. Sem roubos de protagonismo. 

Sem querer desvendar a narrativa, que me surpreendia a cada capítulo, julgo que este é um livro acima de tudo sobre o tempo e a memória. Sobre a visão, também. A visão diferente de três amigos ao longo dos tempos, ironicamente sendo um deles cego. Três perspetivas em três tempos. Julgo que seria uma síntese acertada. E três perspetivas em três tempos exige um jogo de cintura que agarrou a minha leitura. Obrigava-me a mim mesma a parar, a levar a angústia ou a surpresa, ou o sorriso para o dia seguinte. É um daqueles livros que não queremos que acabe, embora ansiemos cada passar de página. 


Theodor Adorno, filósofo contemporâneo, disse que «escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro». Entendemos o significado desta expressão. Como pode nascer poesia depois de uma humanidade anulada como o foi durante a segunda guerra? No entanto, é Eryk, que se tornará um famoso escritor, que nos mostra a certa altura, regressado de um campo de trabalhos forçados, uma realidade diferente: 

«(…) também tinha escrito uns contos, mas precisava da poesia para explicar “a que cheiram cem tipos espremidos num vagão”. (…) Eryk vinha diferente, escondia-se nos versos para não ter de dizer o que não queria (…).».

E se Eryk se destaca pela palavra, Yankel destaca-se pelos sentidos apurados em sensibilidade pura, a fazer frente à falta de visão. E Shionka pelo corpo quase selvagem, que expressa mais que a boca muda. Três inseparáveis que a guerra dividiu, mas que a Paris de 2001 — tão distante da Polónia das décadas de 30 e 40 — ligará de novo para juntar memórias conscientes e dolorosas. Para as personagens e para o leitor. Mas que valem realmente a pena. E não é um livro sobre a guerra ou a sobrevivência, nem sobre a religião ou o amor. É um livro sobre a humanidade no seu estado mais inocente, mas também mais cru e instintivamente animalesco.

Os Canibais, Álvaro do Carvalhal

 


Há uns anos, uma editora, uma verdadeira editora — daquelas pessoas já tão escassas que mais do que editar livros em prol do lucro os anima e os esparge por todos aqueles que encontra — depositou-me nas mãos, inusitadamente, dois pequenos tesouros: o Mistério do Mário de Sá Carneiro e Os Canibais, de Álvaro do Carvalhal. Se o primeiro, apesar de pequeno, já continha em si o peso do confiado, o segundo nada dizia à minha pobre cultura literária. 

Não furei as minhas leituras do momento para lhe dar lugar. Deixei-o sossegado na estante até que uma viagem de comboio me exigiu que procurasse um livro leve e com letra acessível não só à minha miopia como também à sonolência e ao embalo de viagem. Cada livro também contém em si, sempre, um lado pragmático e ajustável às circunstâncias. E Os Canibais entraram na mochila. Li a primeira página umas quatro ou cinco vezes. Não por me perder, não por não perceber, mas pelo êxtase da descoberta. 

Descobri o Edgar Allan Poe português. Mais do que isso, porque é sempre desconsideração a comparação de um autor com outro sobejamente célebre, digamos que descobri mais um dos autores portugueses esquecidos. Incompreensivelmente esquecido ou desconsiderado. 

Por entre as descrições dos bailes de outrora, dos rendados dos vestidos e dos cochichos de donzelas e cavalheiros, dá-se um enamoramento. Um enamoramento com três ângulos. A descrição é feita com todos os detalhes do realismo romântico, numa sátira social cheia de ironia e com um narrador sempre presente e que conversa ludicamente com o leitor, interrompendo constantemente a narrativa:


«O meu conto é amador do sangue azul; adora a aristocracia. E o leitor há-de peregrinar comigo pela alta sociedade; hei-de levá-lo a um ou dois bailes, despertar-lhe o interesse com mistérios, amores e ciúmes que se armazenam por esses romances de amar ao efeito. Ora ouça que eu principio moldando-me pela velha costumeira: A abóbada azul do céu alumiava com milhões de estrelas os coruchéus, obeliscos e arcadas da decrépita arquitetura da cidade. (…)»


Margarida (Dona Margarida) apaixona-se perdidamente pelo misterioso Visconde de Aveleda. No entanto, D. João tem por ela um amor inegável. É este o mote, que não tem em si nada de novo ou de particularmente chamativo. Importa o que vem a seguir: a boda, a noite que a sucede e todo o tormento que daí advirá. Mais uma vez Álvaro do Carvalhal quer satirizar a morte, a solução tão limpa do romantismo, e carrega-la de horror. A narrativa oscila entre a sátira, o mistério, o fantástico e o desvelar do terror, num jogo de cintura equilibrado. E se o canibalismo começa por ser um problema que leva personagens a pensar no suicídio, a lembrança de uma fortuna a receber dissuade-os imediatamente. Até ao final, a crítica social acentuada. Vale a pena ler este texto e intercalar gargalhadas com olhos arregalados, para além de todo o valor literário num dos escritores portugueses que ficou sempre — e incompreensivelmente — fora dos cânones.