Sunday, January 8, 2023

Americanah — Chimamanda Ngozi Adichie

Sempre fui uma leitora ávida, mas estive três longos anos sem conseguir dedicar-me à leitura. Um período menos firme, aliado depois a faltas de concentração que a chegada de uma filha pouco dada a dormir trouxe e também à exigência de um novo trabalho a que quis dar de mais, tudo isso desmoronou os meus hábitos de leitura e refugiei-me na poesia, fiel companheira de escassas palavras a serem tão grandes na minha cabeça. 

No verão passado consegui retomar os velhos hábitos, a medo, negando alguns livros pelo tamanho (eu, que sempre tive uma paixão pelos russos muito pelo tamanho das suas obras, que fundavam raízes com tempo e solidez) mas escolhendo outros belíssimos (quero falar deles um destes dias). E no Verão neguei a americanah, que a amiga bibliotecária me aconselhou. Que não, que era muito grande, que estava desabituada. 




E em dezembro a amiga bibliotecária volta a pôr-mo nas mãos a dizer “tens de ler isto, miúda!”. E trouxe-o comigo pouco crédula — não na obra, da qual já tinha ouvido falar várias vezes, mas na minha capacidade de resistir a mais de 700 páginas. Meteram-se as festividades e pouco lhe liguei. Mas o ano começou e a história começou a ser um pouco minha. E há dois ou três dias atrás a história deixou de ser um pouco minha: eu passei a ser a Ifemelu. Passei a sofrer com a pouca sorte, a irritar-me tantas vezes pelo desprendimento, a ansiar Obinze e a querer saber do seu destino. Simpatizei com a tia Uju, com Dike, com a mãe de Obinze, irritei-me com Ranyinudo e todas as mulheres nigerianas de uma forma geral. Tive uma certa pena de Blaine, pouca simpatia por Curt. Deixei tarefas domésticas para trás porque cada bocadinho era para o livro, que deixou de ser livro e foi quase uma conversa telefónica com uma amiga, tal a cumplicidade que ganhei. 

E estas emoções todas devo-as não ao meu papel de leitora, mas ao trabalho de Chimamanda Ngozi Adichie. Um livro sem pressa, pensado, maturado, cheio de pormenores que se adensam e ganham forma na nossa realidade, ficam mesmo ali ao lado embora, saibamos, reflitam uma realidade cuja identidade não é a nossa, cidadãos brancos, europeus, que não nos questionamos sobre as complexidades que um tom de pele transporta. Não nos basta dizermos que não somos racistas, precisamos conhecer os contornos quotidianos da raça: as dificuldades, as desconfianças, mas também os sabores, os cheiros, a humidade do ar, as cores. Comi arroz jollof uma única vez, numa festa multicultural londrina, onde nem eu nem o meu marido conhecíamos os anfitriões. Nessa noite engravidámos, e ainda hoje sorrio e acuso o arroz. Nestes dias sentei-me à mesa com Ifemelu várias vezes a comer o seu jollof. E é isto que um bom livro nos faz, permite-nos entrar sem bater à porta. Literariamente, o meu 2023 começa mesmo muito bem.




«(…) e, no entanto, havia cimento na sua alma. Já lá estava há algum tempo, uma doença de fadiga matinal, de desolação, de falta de fronteiras pessoais. Provocava-lhe anseios amorfos, desejos sem forma, breves vislumbres imaginários de outras vidas que poderia estar a viver, que ao longo dos meses se foram fundindo em saudades lancinantes do seu país.» p.16


«Ela ouviu as suas palavras como uma melodia e sentiu a respiração entrecortada, ofegante. Não choraria, era ridículo chorar ao fim de tanto tempo, mas tinha os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas, um pedregulho no peito e um ardor na garganta. As lágrimas faziam-lhe comichão. Não emitiu qualquer som. Ele pegou na mão dela, ficaram de mãos dadas em cima da mesa, e entre eles cresceu um silêncio antigo que ambos conheciam. Ela estava dentro deste silêncio e estava em segurança.» p. 657


Editora D. Quixote, 2013, tradução de Ana Saldanha

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