A primavera desperta sorrisos. E no primeiro dia de
primavera no parque o gato Malhado acordou e sorriu um sorriso tão grande que
desencadeou toda a trama deste delicioso livro. Quem diz que é infantil
desengane-se: traz-nos leveza com uma linguagem lírica, traz-nos amor com
rodopios, lembra-nos a diferença e o preconceito com criancice.
A história de amor entre um gato sisudo e uma andorinha
rebelde e sorridente foi contada à Manhã pelo Vento, que a fez atrasar-se a apagar
as estrelas, e foi depois contada pela Manhã ao tempo, em troca de uma rosa
azul. Da história ficamos com os jogos de amor entre o malhado e a Sinhá, com
os rumores à sua volta, as críticas sempre sussurradas, de quem não aceita um
amor assim porque nunca tal se viu. Guardamos a inocência de um soneto de amor
e a dura crítica do Doutor Sapo Cururu, que muitos sorrisos me deu.
Dividida pelas estações do ano, com importantes parêntesis,
esta história de amor não é, de todo, uma história para crianças, também porque
não viveram felizes para sempre. Viveram com as memórias de momentos felizes
para sempre.
Jorge Amado escreveu esta história em 1948, no primeiro
aniversário do seu filho João Jorge. É este quem a encontra, em 1976, a dá a
ler a Carybé, que a ilustra com estes traços leves e coloridos que nos prendem.
Depois disto, Jorge Amado não tem outra hipótese que a levar para publicação.
Uma obra-prima que nasce do amor e que não fala senão de amor. E a Manhã ganhou
do Tempo a rosa azul.
«A manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de
hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa,
abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir sem despertador,
dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã
não mais acordará antes das onze e olhe lá. Cortinas nas janelas para evitar a
luz violenta, café servido na cama. Sonhos de donzela casadoira, outra a
realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada
a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do
escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.
Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto
prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando,
acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade,
tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã
esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão
delicada rapariga.» p. 13

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