«Os meus vizinhos são determinados. Não têm preocupações,
não se apaixonam, não roem as unhas, não acreditam no acaso, não fazem
promessas nem barulho, não têm segurança social, não choram, não procuram as chaves
nem os óculos, o telecomando, os filhos ou a felicidade.
Não leem, não pagam impostos, não fazem dieta, não têm
preferências, não mudam de opinião, não fazem a cama, não fumam, não fazem
listas, não pensam duas vezes antes de falar. Não têm substitutos.
Não são graxistas, ambiciosos, rancorosos, sedutores,
mesquinhos, generosos, invejosos, desleixados, limpos, sublimes, curiosos,
viciados, avarentos, sorridentes, maliciosos, violentos, apaixonados,
mal-humorados, hipócritas, dóceis, duros, mudos, maus, men-tirosos, ladrões,
jogadores, corajosos, falsos, crentes, pervertidos, otimistas.
Estão mortos.
A única diferença entre eles é a madeira do caixão:
carvalho, pinho ou mogno.» p. 9
É assim que começa A Breve Vida das Flores. E se este
primeiro capítulo não me tivesse agarrado logo, teria o início do segundo, numa
perfeição sem pausa:
«Chamo-me Violette Toussaint. Era guarda de passagem de
nível, agora sou guarda de cemitério.
Saboreio a vida, bebo-a em pequenos goles como chá de
jasmim com mel. E quando chega o final de tarde e os portões do meu cemitério
se fecham e a chave se pendura à porta da minha casa de banho, fico no paraíso.
Não o paraíso dos meus vizinhos da frente. Não.
O paraíso dos vivos: um trago de porto -- colheita de
1983 -, que me traz José-Luis Fernandez todos os dias 1 de setembro.
Um resto de férias vertido num cálice de cristal, uma
espécie de verão extemporâneo que desarrolho por volta das sete da tarde, faça
chuva, neve ou vento.
Dois dedais de líquido rubi. O sangue das vinhas do
Porto.» p. 10
Nunca um cemitério foi um lugar tão encantador como com este livro. Nunca uma profissão que nem me lembrava de existir e, se pensasse nela, a pensaria com sombria amargura, se mostrou tão delicada. Delicadeza é a palavra que penso melhor definir este livro. Delicadeza no amor, no viver o abandono, delicadeza na dor e na saudade.
O livro era bom o suficiente sem precisar de um mistério,
de uma morte por apurar, de um amor extraconjugal para perceber. Mas assim
tornou-se incrível. Agarrou-me e levou-me para o universo de Violette, que é o
que se espera que os livros façam, fazer-nos viajar. A dor exposta era tanta
que muitas vezes abrandava a leitura, mas uma dor bonita, se se puder assim
chamar a alguma dor tão voraz e absoluta como aquela.
Nutri grande carinho pela Célia e pelo Sasha, os grandes
pilares que Violette conheceu. Senti ternura pelo Nono, pelo Elvis e pelo
Gaston, os irmãos Luchini, o padre Cédric. Julien Seul tomou um bocadinho do
meu coração, mas adorei o diário da sua mãe Irène Fayolle e da sua paixão por
rosas e por Gabriel Prudent. Adorei os nomes, as alcunhas, os sobrenomes.
Toussaint, Seul, Prudent. Os pormenores que dizem mais. A violeta, cor de luto
delicado.
A breve vida das flores e as flores a ajudarem a dar de novo
vida. Às memórias e ao quotidiano. Foi um livro fenomenal.

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