Saturday, September 10, 2016

O Adeus de Carminha



Carminha parecia fazer adeus, mas apenas lavava janelas. Um pano branco na mão. O braço adejando de encontro ao vidro. (…) A janela tem feições de humano transfigurado em transparência, já que a quadrícula esventra dois olhos e uma testa de cantaria abaulada, nariz de batente de alto a baixo, e a boca, maior do que a própria transparência, só aberta quando de par em par. Então Carminha pousa-lhe os seios no peitoril, arredondando as costas. Torcido o lenço branco rasgado da borda de um lençol, puído de sonos e lavaduras, agora afogado de água.

Lídia Jorge

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