Friday, December 30, 2022

O Homem Domesticado — Nuno Gomes Garcia

 


Li este livro em 2018, no ano em que a grande série televisiva que agarrou o grande público foi The Handmaid's Tale, A História de uma Serva, baseada no livro com o mesmo nome de Margaret Atwood e publicado pela primeira vez em 1985. A discussão sobre se o mundo distópico de Gilead é mera ficção ou se aproxima velozmente da realidade desabrochou. Nesta nova sociedade os homens detêm todo o poder, estando as mulheres proibidas de ler, de usar o seu nome próprio ou de sair quando bem entendem. Aquelas que são férteis são usadas num ritual de procriação para gerarem filhos às mulheres inférteis dos grandes políticos, também estas com um papel bastante diminuto no que respeita a liberdade. Uma série que, pese embora a angústia, está muito bem realizada e vale realmente a pena acompanhar.

Se, por um lado, vi a série de uma assentada, até me doerem os olhos, não quis, por outro, ler imediatamente depois o romance da Margaret Atwood. Encontrei, no entanto, a mesma cegueira totalitária no seu reverso sexual no terceiro romance de Nuno Gomes Garcia. O Homem Domesticado trata de uma sociedade europeia, depois do que denominam de Grande Flagelo, em que são as mulheres que lideram toda a qualquer ação, não permitindo aos machos mais do que tratar da casa, sempre vestidos com o seu cache-tout, e ter a sua parte na procriação em úteros artificiais. As mulheres têm total poder de domesticar os machos que escolheram no Instituto de Maridos, assim como de os castigar. 


Toda a trama gira em torno de Francine Bonne e dos seus dois maridos, uma vez que o primeiro é infértil e ela conseguiu arranjar um segundo sem se desfazer do primeiro, que já estava domesticado a seu gosto. A chegada do segundo marido, diferente dos demais, todos eles criados em laboratório, transporta consigo uma série de questões e ações que culminam numa morte e na sua investigação. Um assassínio que se transformou numa questão política e que será conduzido de formas menos próprias, numa justiça que pretende, acima de tudo, dar força às mulheres e mostrar a rebeldia dos machos e a necessidade de os dominar.

A escrita em si não foi sempre cativante, mas julgo que a temática e a reflexão vindoura se sobrepuseram a quaisquer momentos menos fluidos. De certa forma, a par de The Handmaid's Tale, O Homem Domesticado relembra-nos a necessidade do equilíbrio social, sem desconsiderações para qualquer dos sexos. Uma reflexão que cada vez mais parece valer a pena.

Diário de um Mau Ano, J. M. Coetzee



Em Dezembro decido sempre, a cada ano, uma leitura que faça jus ao ano que tive. Como um selar de 365 dias numas só obra e, fechado o livro, começar uma narrativa nova. Em 2017 tive um ano de provações que merecia uma leitura espessa, consciente e sem felicidades plastificadas. “Diário de Um Mau Ano”, do Nobel J. M. Coetzee foi a escolha acertada. Atenção que não queria com isto encher-me de piedade ou raiva ou angústia, pelo contrário. Queria ler outro Mau Ano, melhor escrito que o meu, para me encher de garra. E logo a primeira página foi uma surpresa. Não sabia absolutamente nada da obra, confiava apenas no conceituado autor e no título ríspido e direto. 

A leitura começou tão rápida que nem reparei numa linha separadora, quase no final da página. Aí chegada, percebi que o texto que estava a ler teria continuação na página seguinte e se iniciava aí uma nova narrativa. Tentei organizar-me o melhor possível na estrutura desusada. Continuei. Percebi que a primeira parte da página era dedicada a ensaios políticos, sociológicos, filosóficos, todos eles de cariz contemporâneo e ainda tão em dia, apesar da primeira edição ser de 2008 e agora os tempos mudarem a uma velocidade superior. A segunda parte da página estava escrita na primeira pessoa, um narrador autodiegético, como se diz agora. Era a voz do autor dos ensaios. Havia ali portanto um escritor, e os seus escritos. Agradou-me. Continuei. Páginas adiante, a estrutura adensa-se: mais um corte, mais um narrador. Temos, portanto, um romance escrito a três vozes: a voz do ensaio, a voz e as angústias do ensaísta, escritor reconhecido mas já com certa idade, que contrata uma mulher interessante para ser sua dactilógrafa. E por fim a voz da dactilógrafa, também ela a narrar na primeira pessoa que revela a sua relação com o escritor. A estranheza primeiro, as críticas às temáticas e à forma de escrita, a aproximação vivencial, a comunicação com o seu companheiro. Tudo se passa num cenário pouco vasto, uma vez que são vizinhos do mesmo prédio, apartados por alguns andares. Três personagens: JC, o escritor; Anya, a dactilógrafa e Allen, o seu companheiro. A realidade, os ciúmes e as oscilações valorativas vão-se adensando, em divergências que ganham contornos muitos deles espelhados nos ensaios descritos acima. É um livro que fala da realidade do dia a dia, das pessoas como elas são, nem boas nem más, um misto que se balanceia e que às vezes se domina, outras se encobre. 


«É como a maquilhagem. A maquilhagem pode ser uma mentira, mas nem toda a gente a usa. Se toda a gente usar maquilhagem, a maquilhagem passa a ser a maneira como as coisas são, e o que é a verdade senão a maneira como as coisas são?»

É um livro sobre a realidade, o mundo na sua forma mais comum. E o mundo na sua forma mais comum tem vícios, tem mentiras, tem trapaças, mas tem valores também.


Boas leituras, e votos de um Bom Ano!

Cem Anos de Solidão, Gabril García Márquez




Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, é uma obra exigente: pede-nos tempo e inteireza, uma entrega plena no desenrolar de cada página. No entanto, se exige, também dá em troca: a primeira frase prende-nos de imediato numa trama que se adensa, cada vez mais, por entre analepses e prolepses sem fim, a lembrar que nenhuma história tem uma linha temporal segura, linear e estruturada. É preciso ir lá atrás, trazer tudo e limpar o pó; e depois saltar para apanhar o futuro lá à frente, deixando-lhe um pouco do cheiro antigo. Só assim nos inscrevemos com alguma fidelidade. A história dos Buendía não podia ser a história de uma família qualquer. Está embebida em misticismo, magia, memória e descoberta. A transbordar de amor e solidão.

«Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo.» Na mesma proporção em que o mundo progride, também Macondo e as suas gentes. Uma progressão que desemboca, precisamente, numa retrogressão. Pelo meio ficam os desenvolvimentos naturalmente humanos: as relações, as traições, os interesses tão diferentes consoante se nasce Aureliano ou José Arcadio, as épocas de luxo e de glória, tão estreitas às de miséria. Os nascimentos, os casamentos, as mortes. As camas de rede legítimas e as ilegítimas. A história de uma família durante seis gerações, cheia de sangue a pulsar, da forma mais autêntica: com retidões e muitas falhas de temperamento.

No meio de todo este realismo que esmurra, encontramos, no entanto, lufadas de ar fresco impregnadas de magia. Seja uma chuva de flores amarelas; ou um fio de sangue que percorreu a aldeia até entrar na cozinha de Úrsula, a matriarca, para a avisar da morte do filho; ou ainda uma chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias... estes são apenas alguns dos exemplos do realismo mágico acentuado nesta obra. 

De toda a singular família Buendía, não preciso pensar para dizer que foi Úrsula a personagem que mais me prendeu. Passada a leitura continuo a ver Úrsula pelos corredores, de roda dos seus caramelos, sustento doce de toda a família, ou a tratar dos orégãos, ou a matar as formigas intrusas. Um alicerce de todas as personagens, assim como de toda a obra. É ela que, na sua sombra, junta as pontas soltas, desamarra os nós e constrói a teia unificada de toda a história. Para lá da família, desenvolvi um carinho especial por Melquíades e o seu caráter quase divino: omnipresente e omnisciente, ao mesmo tempo que quase criança nas suas invenções e fantasias. Ainda assim, a personagem que, fora da família, conserva — à imagem de Úrsula — um papel unificador, é Pilar Ternera e os seus olhos que leem o futuro dos Buendía melhor que as cartas que deita. Comum a todas as personagens, sem exceção, é, sem dúvida, a solidão em que cada uma se encontra, ou desaba, ou procura. Aureliano Buendía afirma, a certa altura, que: «o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão».

A questão que fica, no final, é saber onde é que esta história estava já escrita, iniciada. Porque cem anos não chegam para a conceber de forma tão integral e absoluta como a encontrei. Haverá por aí um quarto de Melquíades, cheio de pó e história, e o García Márquez não terá sido mais do que um sortudo.

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

 


Comecei a ler A Sombra do Vento sem enormes expectativas. Toda a gente me dizia que era um livro que eu ia adorar e essas certezas sempre me encheram de dúvidas e desconfianças. Depois do arranque inicial, voraz, da descrição da descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos, perdi velocidade à medida que o suspense se acentuava. Desde miúda que não lia um livro de mistérios e investigações. A ansiedade não faz parte dos meus desejos literários. Por isso, a par da intriga, ia crescendo em mim um certo grau de irritabilidade: queria dar um passo à frente das investigações de Daniel Sempere e não conseguia: cada descoberta dele era um espanto meu. Assim, se na primeira semana o livro me acompanhava só uns minutos antes de adormecer, na segunda já fazia parte do meu acordar, da hora de almoço e de toda a noite desde o final do jantar. O que no início era uma exasperação, por me sentir pouco perspicaz, tornou-se uma quase obsessão. Foi uma leitura de interjeições constantes: de espanto, de medo, de confirmação ou de consternação. 


No que respeita às personagens, senti-as todas muito bem fundadas: construí-as, vi-as e acompanhei-as: nos seus trajes, nos hábitos e na forma de estar. Aquela que mais esperei em cada página e com a qual mais sofri e mais sorri, foi sem sombra de dúvida Fermín Romero de Torres. Lembrou-me o João da Ega, personagem imortal d’Os Maias, com o seu caráter progressista, sempre crítico, mas também sonhador e sentimental. O inteligente, perspicaz e carinhoso Fermín a quem Daniel deu a oportunidade de ter novamente uma vida e que ele agarrou literalmente com um apetite voraz e guloso. Gostava de ter lido um pai do Daniel mais ativo, mais participativo de toda a trama. Senti-o quase como uma presença divina, sentado no seu cadeirão com o Cândido do Voltaire sobre as pernas, a compreender silenciosa e pacientemente. Gostava que, mais do que Gustavo Barceló, fosse o pai do Daniel, o livreiro Sempere, a dar um dos últimos empurrões da investigação. Gostava, mas não foi assim, e o pai do Daniel conservou a sua calma e confiança ao longo de toda a obra.


Relembrar que cada livro que lemos encerra em si uma história para lá da que narra revela-se o mote desta obra. Para nos fazer imaginar o contexto, a vida por trás da obra, as razões que a justificam, as ânsias e paixões do autor. Um mistério cheio de meandros e pormenores a que muito dificilmente poderemos chegar. E este é o encanto das lombadas e do papel que folheamos: o terem tanto sangue a pulsar, que não conseguimos nem fazer uma pequena ideia. Carlos Ruiz Zafón lembra-nos isso a cada página. E faz-nos avançar a leitura com uma ânsia de indícios que nos ajudem a penetrar em dois livros a um só tempo.  

Para lá de tudo isto — como se não bastasse — este livro conduz-nos por uma Barcelona que apetece conhecer com o livro nas mãos. Lugares que nunca visitámos ou vagamente nos lembramos assumem agora formas renovadas, traços marcados de livreiros, relojoeiros, inspetores, mendigos e leitores curiosos. Com um olhar à espreita, sempre. A verdade é que, na noite em que acabei de ler A Sombra do Vento, sonhei que passeava pelas Ramblas, a saborear Sugus.

A Gorda — Isabela Figueiredo



Desde 2016, quando saiu A Gorda, que eu o tinha marcado como livro a ler. Lembro-me de ouvir na rádio, ler nos jornais e nas redes sociais imensas críticas e o livro tinha tudo aquilo que um livro deveria ter. O isco já estava lançado, mas os livros foram-se sucedendo e A Gorda foi ficando por ler. Este início de verão, por sugestão de uma bibliotecária (vão por mim, as bibliotecárias fazem um aconselhamento literário fenomenal, está-lhes no sangue) lá me veio A Gorda parar às mãos. E logo numa altura propícia a crises e chiliques frente ao espelho. Das duas uma: ou começava uma dieta rigorosa ou espanejava pelo mundo os meus quilos a mais, sem qualquer complexo. Mas ler a Isabela Figueiredo é muito mais do que este simples maniqueísmo. 


Sempre gostei de livros que abusam das analepses. Fazem-nos viajar no tempo e na história da personagem como uma quase divindade, presente para lá do tempo e do espaço. Mas este também não é um livro com um presente específico e que vá lá atrás regularmente. Este é um livro sem tempo e do tempo todo. Tão essencial é a adolescência como o dia-a-dia dos seus trabalhos, como num instante voltamos ao tempo da faculdade. Todos os tempos numa teia só, bem desenhada e a apanhar-nos nela sem piedade. Relembramos esses tempos, são nossos também. Nessa teia de tempos dispersos não há a ânsia de encontrar respostas ou justificações para o presente: há vida, apenas, se isso fosse pouco.

Se o primeiro capítulo é o da porta de entrada e o último é o do hall, com A Gorda não ficamos à entrada. Percorremos uma casa inteira. Uma casa que é muitas vidas, dois países e muitas experiências, tudo em simultâneo e com ajuda de uma banda sonora sempre presente, sempre coincidente. É por entre as diferentes divisões que divisamos Lourenço Marques, Matola, Lourinhã, Minho, Alentejo, Almada. A vida da Maria Luísa, dos seus pais, da tia Maria da Luz, da prima Fá, do senhor diretor, da Tony, do Leonel e do Tiago, dos cães e, em cada centímetro de casa, em cada partícula de pó, em cada cheiro da marmelada dos domingos de outono, do David. 


«A vida adulta raspa a pele.», diz-nos a determinada altura. Mas se a vida adulta raspa a pele as memórias da adolescência não a hidratam, pelo contrário. Preparam essa raspagem com uma esfoliação constante, ainda que tantas vezes disfarçada. E Maria Luísa aprende a arte da fortaleza, e de ser ou tudo ou nada, como sublinha tantas vezes. Entrei com a Luísa no carro, estive com ela na casa dos familiares, no colégio, na faculdade, no trabalho e nas mesas de café. Acampei com ela, estive com ela em casa. Senti-me Luísa inúmeras vezes. E é isso que procuro num livro. E foi por isso que A Gorda foi muito mais do que previa, embora já previsse bastante.

Tuesday, October 9, 2018



Cada estante, cada prateleira, cada lombada, contava a nossa distância por entre o cheiro amarelecido e bafiento. Cada língua com os seus sons estabelecidos falava de tudo o que existe no espaço que é nosso e que heróis e rebeldes tomam emprestados em dias de temporal e galope, só para se fazerem ser e para nos engrandecer o tempo. Leitores sedentos de corpo perseguem-nos nas páginas de cantos humedecidos de tantos dedos em busca da meada que enrolamos num capítulo que esquecemos. Uma labiríntica biblioteca, minha e tua que, condescendentes, permitimos que qualquer Cervantes usasse.