Friday, December 30, 2022

Cem Anos de Solidão, Gabril García Márquez




Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, é uma obra exigente: pede-nos tempo e inteireza, uma entrega plena no desenrolar de cada página. No entanto, se exige, também dá em troca: a primeira frase prende-nos de imediato numa trama que se adensa, cada vez mais, por entre analepses e prolepses sem fim, a lembrar que nenhuma história tem uma linha temporal segura, linear e estruturada. É preciso ir lá atrás, trazer tudo e limpar o pó; e depois saltar para apanhar o futuro lá à frente, deixando-lhe um pouco do cheiro antigo. Só assim nos inscrevemos com alguma fidelidade. A história dos Buendía não podia ser a história de uma família qualquer. Está embebida em misticismo, magia, memória e descoberta. A transbordar de amor e solidão.

«Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo.» Na mesma proporção em que o mundo progride, também Macondo e as suas gentes. Uma progressão que desemboca, precisamente, numa retrogressão. Pelo meio ficam os desenvolvimentos naturalmente humanos: as relações, as traições, os interesses tão diferentes consoante se nasce Aureliano ou José Arcadio, as épocas de luxo e de glória, tão estreitas às de miséria. Os nascimentos, os casamentos, as mortes. As camas de rede legítimas e as ilegítimas. A história de uma família durante seis gerações, cheia de sangue a pulsar, da forma mais autêntica: com retidões e muitas falhas de temperamento.

No meio de todo este realismo que esmurra, encontramos, no entanto, lufadas de ar fresco impregnadas de magia. Seja uma chuva de flores amarelas; ou um fio de sangue que percorreu a aldeia até entrar na cozinha de Úrsula, a matriarca, para a avisar da morte do filho; ou ainda uma chuva que durou quatro anos, onze meses e dois dias... estes são apenas alguns dos exemplos do realismo mágico acentuado nesta obra. 

De toda a singular família Buendía, não preciso pensar para dizer que foi Úrsula a personagem que mais me prendeu. Passada a leitura continuo a ver Úrsula pelos corredores, de roda dos seus caramelos, sustento doce de toda a família, ou a tratar dos orégãos, ou a matar as formigas intrusas. Um alicerce de todas as personagens, assim como de toda a obra. É ela que, na sua sombra, junta as pontas soltas, desamarra os nós e constrói a teia unificada de toda a história. Para lá da família, desenvolvi um carinho especial por Melquíades e o seu caráter quase divino: omnipresente e omnisciente, ao mesmo tempo que quase criança nas suas invenções e fantasias. Ainda assim, a personagem que, fora da família, conserva — à imagem de Úrsula — um papel unificador, é Pilar Ternera e os seus olhos que leem o futuro dos Buendía melhor que as cartas que deita. Comum a todas as personagens, sem exceção, é, sem dúvida, a solidão em que cada uma se encontra, ou desaba, ou procura. Aureliano Buendía afirma, a certa altura, que: «o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão».

A questão que fica, no final, é saber onde é que esta história estava já escrita, iniciada. Porque cem anos não chegam para a conceber de forma tão integral e absoluta como a encontrei. Haverá por aí um quarto de Melquíades, cheio de pó e história, e o García Márquez não terá sido mais do que um sortudo.

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

 


Comecei a ler A Sombra do Vento sem enormes expectativas. Toda a gente me dizia que era um livro que eu ia adorar e essas certezas sempre me encheram de dúvidas e desconfianças. Depois do arranque inicial, voraz, da descrição da descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos, perdi velocidade à medida que o suspense se acentuava. Desde miúda que não lia um livro de mistérios e investigações. A ansiedade não faz parte dos meus desejos literários. Por isso, a par da intriga, ia crescendo em mim um certo grau de irritabilidade: queria dar um passo à frente das investigações de Daniel Sempere e não conseguia: cada descoberta dele era um espanto meu. Assim, se na primeira semana o livro me acompanhava só uns minutos antes de adormecer, na segunda já fazia parte do meu acordar, da hora de almoço e de toda a noite desde o final do jantar. O que no início era uma exasperação, por me sentir pouco perspicaz, tornou-se uma quase obsessão. Foi uma leitura de interjeições constantes: de espanto, de medo, de confirmação ou de consternação. 


No que respeita às personagens, senti-as todas muito bem fundadas: construí-as, vi-as e acompanhei-as: nos seus trajes, nos hábitos e na forma de estar. Aquela que mais esperei em cada página e com a qual mais sofri e mais sorri, foi sem sombra de dúvida Fermín Romero de Torres. Lembrou-me o João da Ega, personagem imortal d’Os Maias, com o seu caráter progressista, sempre crítico, mas também sonhador e sentimental. O inteligente, perspicaz e carinhoso Fermín a quem Daniel deu a oportunidade de ter novamente uma vida e que ele agarrou literalmente com um apetite voraz e guloso. Gostava de ter lido um pai do Daniel mais ativo, mais participativo de toda a trama. Senti-o quase como uma presença divina, sentado no seu cadeirão com o Cândido do Voltaire sobre as pernas, a compreender silenciosa e pacientemente. Gostava que, mais do que Gustavo Barceló, fosse o pai do Daniel, o livreiro Sempere, a dar um dos últimos empurrões da investigação. Gostava, mas não foi assim, e o pai do Daniel conservou a sua calma e confiança ao longo de toda a obra.


Relembrar que cada livro que lemos encerra em si uma história para lá da que narra revela-se o mote desta obra. Para nos fazer imaginar o contexto, a vida por trás da obra, as razões que a justificam, as ânsias e paixões do autor. Um mistério cheio de meandros e pormenores a que muito dificilmente poderemos chegar. E este é o encanto das lombadas e do papel que folheamos: o terem tanto sangue a pulsar, que não conseguimos nem fazer uma pequena ideia. Carlos Ruiz Zafón lembra-nos isso a cada página. E faz-nos avançar a leitura com uma ânsia de indícios que nos ajudem a penetrar em dois livros a um só tempo.  

Para lá de tudo isto — como se não bastasse — este livro conduz-nos por uma Barcelona que apetece conhecer com o livro nas mãos. Lugares que nunca visitámos ou vagamente nos lembramos assumem agora formas renovadas, traços marcados de livreiros, relojoeiros, inspetores, mendigos e leitores curiosos. Com um olhar à espreita, sempre. A verdade é que, na noite em que acabei de ler A Sombra do Vento, sonhei que passeava pelas Ramblas, a saborear Sugus.

A Gorda — Isabela Figueiredo



Desde 2016, quando saiu A Gorda, que eu o tinha marcado como livro a ler. Lembro-me de ouvir na rádio, ler nos jornais e nas redes sociais imensas críticas e o livro tinha tudo aquilo que um livro deveria ter. O isco já estava lançado, mas os livros foram-se sucedendo e A Gorda foi ficando por ler. Este início de verão, por sugestão de uma bibliotecária (vão por mim, as bibliotecárias fazem um aconselhamento literário fenomenal, está-lhes no sangue) lá me veio A Gorda parar às mãos. E logo numa altura propícia a crises e chiliques frente ao espelho. Das duas uma: ou começava uma dieta rigorosa ou espanejava pelo mundo os meus quilos a mais, sem qualquer complexo. Mas ler a Isabela Figueiredo é muito mais do que este simples maniqueísmo. 


Sempre gostei de livros que abusam das analepses. Fazem-nos viajar no tempo e na história da personagem como uma quase divindade, presente para lá do tempo e do espaço. Mas este também não é um livro com um presente específico e que vá lá atrás regularmente. Este é um livro sem tempo e do tempo todo. Tão essencial é a adolescência como o dia-a-dia dos seus trabalhos, como num instante voltamos ao tempo da faculdade. Todos os tempos numa teia só, bem desenhada e a apanhar-nos nela sem piedade. Relembramos esses tempos, são nossos também. Nessa teia de tempos dispersos não há a ânsia de encontrar respostas ou justificações para o presente: há vida, apenas, se isso fosse pouco.

Se o primeiro capítulo é o da porta de entrada e o último é o do hall, com A Gorda não ficamos à entrada. Percorremos uma casa inteira. Uma casa que é muitas vidas, dois países e muitas experiências, tudo em simultâneo e com ajuda de uma banda sonora sempre presente, sempre coincidente. É por entre as diferentes divisões que divisamos Lourenço Marques, Matola, Lourinhã, Minho, Alentejo, Almada. A vida da Maria Luísa, dos seus pais, da tia Maria da Luz, da prima Fá, do senhor diretor, da Tony, do Leonel e do Tiago, dos cães e, em cada centímetro de casa, em cada partícula de pó, em cada cheiro da marmelada dos domingos de outono, do David. 


«A vida adulta raspa a pele.», diz-nos a determinada altura. Mas se a vida adulta raspa a pele as memórias da adolescência não a hidratam, pelo contrário. Preparam essa raspagem com uma esfoliação constante, ainda que tantas vezes disfarçada. E Maria Luísa aprende a arte da fortaleza, e de ser ou tudo ou nada, como sublinha tantas vezes. Entrei com a Luísa no carro, estive com ela na casa dos familiares, no colégio, na faculdade, no trabalho e nas mesas de café. Acampei com ela, estive com ela em casa. Senti-me Luísa inúmeras vezes. E é isso que procuro num livro. E foi por isso que A Gorda foi muito mais do que previa, embora já previsse bastante.

Tuesday, October 9, 2018



Cada estante, cada prateleira, cada lombada, contava a nossa distância por entre o cheiro amarelecido e bafiento. Cada língua com os seus sons estabelecidos falava de tudo o que existe no espaço que é nosso e que heróis e rebeldes tomam emprestados em dias de temporal e galope, só para se fazerem ser e para nos engrandecer o tempo. Leitores sedentos de corpo perseguem-nos nas páginas de cantos humedecidos de tantos dedos em busca da meada que enrolamos num capítulo que esquecemos. Uma labiríntica biblioteca, minha e tua que, condescendentes, permitimos que qualquer Cervantes usasse.

Saturday, July 14, 2018

O Tempo


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana

Friday, February 9, 2018

É o vento que me leva

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga

Olhei as suas páginas como rostos

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos 
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke