Friday, December 30, 2022

A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Zafón

 


Comecei a ler A Sombra do Vento sem enormes expectativas. Toda a gente me dizia que era um livro que eu ia adorar e essas certezas sempre me encheram de dúvidas e desconfianças. Depois do arranque inicial, voraz, da descrição da descoberta do Cemitério dos Livros Esquecidos, perdi velocidade à medida que o suspense se acentuava. Desde miúda que não lia um livro de mistérios e investigações. A ansiedade não faz parte dos meus desejos literários. Por isso, a par da intriga, ia crescendo em mim um certo grau de irritabilidade: queria dar um passo à frente das investigações de Daniel Sempere e não conseguia: cada descoberta dele era um espanto meu. Assim, se na primeira semana o livro me acompanhava só uns minutos antes de adormecer, na segunda já fazia parte do meu acordar, da hora de almoço e de toda a noite desde o final do jantar. O que no início era uma exasperação, por me sentir pouco perspicaz, tornou-se uma quase obsessão. Foi uma leitura de interjeições constantes: de espanto, de medo, de confirmação ou de consternação. 


No que respeita às personagens, senti-as todas muito bem fundadas: construí-as, vi-as e acompanhei-as: nos seus trajes, nos hábitos e na forma de estar. Aquela que mais esperei em cada página e com a qual mais sofri e mais sorri, foi sem sombra de dúvida Fermín Romero de Torres. Lembrou-me o João da Ega, personagem imortal d’Os Maias, com o seu caráter progressista, sempre crítico, mas também sonhador e sentimental. O inteligente, perspicaz e carinhoso Fermín a quem Daniel deu a oportunidade de ter novamente uma vida e que ele agarrou literalmente com um apetite voraz e guloso. Gostava de ter lido um pai do Daniel mais ativo, mais participativo de toda a trama. Senti-o quase como uma presença divina, sentado no seu cadeirão com o Cândido do Voltaire sobre as pernas, a compreender silenciosa e pacientemente. Gostava que, mais do que Gustavo Barceló, fosse o pai do Daniel, o livreiro Sempere, a dar um dos últimos empurrões da investigação. Gostava, mas não foi assim, e o pai do Daniel conservou a sua calma e confiança ao longo de toda a obra.


Relembrar que cada livro que lemos encerra em si uma história para lá da que narra revela-se o mote desta obra. Para nos fazer imaginar o contexto, a vida por trás da obra, as razões que a justificam, as ânsias e paixões do autor. Um mistério cheio de meandros e pormenores a que muito dificilmente poderemos chegar. E este é o encanto das lombadas e do papel que folheamos: o terem tanto sangue a pulsar, que não conseguimos nem fazer uma pequena ideia. Carlos Ruiz Zafón lembra-nos isso a cada página. E faz-nos avançar a leitura com uma ânsia de indícios que nos ajudem a penetrar em dois livros a um só tempo.  

Para lá de tudo isto — como se não bastasse — este livro conduz-nos por uma Barcelona que apetece conhecer com o livro nas mãos. Lugares que nunca visitámos ou vagamente nos lembramos assumem agora formas renovadas, traços marcados de livreiros, relojoeiros, inspetores, mendigos e leitores curiosos. Com um olhar à espreita, sempre. A verdade é que, na noite em que acabei de ler A Sombra do Vento, sonhei que passeava pelas Ramblas, a saborear Sugus.

A Gorda — Isabela Figueiredo



Desde 2016, quando saiu A Gorda, que eu o tinha marcado como livro a ler. Lembro-me de ouvir na rádio, ler nos jornais e nas redes sociais imensas críticas e o livro tinha tudo aquilo que um livro deveria ter. O isco já estava lançado, mas os livros foram-se sucedendo e A Gorda foi ficando por ler. Este início de verão, por sugestão de uma bibliotecária (vão por mim, as bibliotecárias fazem um aconselhamento literário fenomenal, está-lhes no sangue) lá me veio A Gorda parar às mãos. E logo numa altura propícia a crises e chiliques frente ao espelho. Das duas uma: ou começava uma dieta rigorosa ou espanejava pelo mundo os meus quilos a mais, sem qualquer complexo. Mas ler a Isabela Figueiredo é muito mais do que este simples maniqueísmo. 


Sempre gostei de livros que abusam das analepses. Fazem-nos viajar no tempo e na história da personagem como uma quase divindade, presente para lá do tempo e do espaço. Mas este também não é um livro com um presente específico e que vá lá atrás regularmente. Este é um livro sem tempo e do tempo todo. Tão essencial é a adolescência como o dia-a-dia dos seus trabalhos, como num instante voltamos ao tempo da faculdade. Todos os tempos numa teia só, bem desenhada e a apanhar-nos nela sem piedade. Relembramos esses tempos, são nossos também. Nessa teia de tempos dispersos não há a ânsia de encontrar respostas ou justificações para o presente: há vida, apenas, se isso fosse pouco.

Se o primeiro capítulo é o da porta de entrada e o último é o do hall, com A Gorda não ficamos à entrada. Percorremos uma casa inteira. Uma casa que é muitas vidas, dois países e muitas experiências, tudo em simultâneo e com ajuda de uma banda sonora sempre presente, sempre coincidente. É por entre as diferentes divisões que divisamos Lourenço Marques, Matola, Lourinhã, Minho, Alentejo, Almada. A vida da Maria Luísa, dos seus pais, da tia Maria da Luz, da prima Fá, do senhor diretor, da Tony, do Leonel e do Tiago, dos cães e, em cada centímetro de casa, em cada partícula de pó, em cada cheiro da marmelada dos domingos de outono, do David. 


«A vida adulta raspa a pele.», diz-nos a determinada altura. Mas se a vida adulta raspa a pele as memórias da adolescência não a hidratam, pelo contrário. Preparam essa raspagem com uma esfoliação constante, ainda que tantas vezes disfarçada. E Maria Luísa aprende a arte da fortaleza, e de ser ou tudo ou nada, como sublinha tantas vezes. Entrei com a Luísa no carro, estive com ela na casa dos familiares, no colégio, na faculdade, no trabalho e nas mesas de café. Acampei com ela, estive com ela em casa. Senti-me Luísa inúmeras vezes. E é isso que procuro num livro. E foi por isso que A Gorda foi muito mais do que previa, embora já previsse bastante.

Tuesday, October 9, 2018



Cada estante, cada prateleira, cada lombada, contava a nossa distância por entre o cheiro amarelecido e bafiento. Cada língua com os seus sons estabelecidos falava de tudo o que existe no espaço que é nosso e que heróis e rebeldes tomam emprestados em dias de temporal e galope, só para se fazerem ser e para nos engrandecer o tempo. Leitores sedentos de corpo perseguem-nos nas páginas de cantos humedecidos de tantos dedos em busca da meada que enrolamos num capítulo que esquecemos. Uma labiríntica biblioteca, minha e tua que, condescendentes, permitimos que qualquer Cervantes usasse.

Saturday, July 14, 2018

O Tempo


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana

Friday, February 9, 2018

É o vento que me leva

É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal. 
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...

Miguel Torga

Olhei as suas páginas como rostos

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos 
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.
E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

Tuesday, January 30, 2018

Palavras



Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Sylvia Plath (Tradução de Ana Cristina Cesar)

Wednesday, January 3, 2018

Pedra


No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade